DE NOVO CONNOSCO, A OBRA DE ORLANDO DA COSTA “O ÚLTIMO OLHAR DE MANÚ MIRANDA” por Clara Castilho

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orlando costaFalámos ontem, no Livro & Livros, neste lançamento da reedição de O Último Olhar de Manú Miranda, o último romnce que Orlando da Costa publicou e cuja primeira edição data de 2000 (publicada pela Âncora Editora). Hoje, teremos um artigo de Clara Castilho que esteve na sessão de apresentação e nos conta como foi.

Foi dia 2 de Dezembro, na Casa de Goa. Cheia para, a propósito da reedição do livro de Orlando da  Costa O Último Olhar de Manú Miranda, se prestar homenagem a este homem que tem injustamente sido lembrado mais por ser pai de António e Ricardo Costa.

A apresentação da obra, agora editada pela Teodolito, esteve a cargo de José Manuel Mendes, numa mesa presidida por Narana Coissoró representando os anfitriões. E lembrando os tempos em que foram amigos, em especial os da luta anti-fascista, Vasco Vieira de Almeida.

Ouvimos reflexões que nos fizeram abrir o apetite de ir a correr ler a obra, com momentos aprazíveis, por vezes hilariantes, mostrando que, à volta de um homem sério, competente, empenhando em construir amizades, se podem juntar pessoas dos mais diversos  sectores políticos.

Diz a editora Teodolito: “Com este romance, Orlando da Costa regressa ao mundo das suas origens, recriado numa narrativa admirável de escrita e sensibilidade. Uma obra de ficção pausada e envolvente, em que lugar e tempo, personagens e destinos assumem, entre o real e o imaginário, uma relação de cumplicidade, tecida de ancestralidade e idiossincrasias.

Ao longo de um percurso de ritual genealógico e de reconhecimento das raízes de uma identidade nativa, moldada em tradições, crenças e transgressões, superstições, sentimentos e sensualidade, o autor revela, nas páginas desta notável obra romanesca, uma original dimensão de vivência das últimas décadas do período colonial português em Goa, dando-nos mais um testemunho singular da sua grande qualidade literária.

José Manuel Mendes realçou aquilo a que chamou “oficina” na obra de Orlando da Costa, onde as palavras finais de um livro foram finamente procuradas, com precisão e sentido estético. Neste livro, encontramos a memória de um tempo, pelo qual perpassa uma portugalidade que não acabou enquanto afectividade que permanece.

Vasco Vieira de Almeida frisou o seu pensamento não dogmático e como, sendo do Partido Comunista Português, aceitava outras ideias, tendo com ele aprendido a ser mais tolerante. Considera que Orlando da Costa conciliava a alegria na luta, relatando episódios  divertidos para os que ouviam, mas também porque divertiram que os viveu, apesar do perigo dos opressores à espreita, ignorantes e tacanhos.

A sessão terminou com belos momentos de música, dança e canto pelo Grupo Eekvat.

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Orlando da Costa nasceu em Lourenço Marques (1929) e viveu a infância e adolescência em Goa. Vive em Lisboa, a partir de 1947, licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Lisboa. É considerado figura importante na chamada literatura “indo-portuguesa” mas também da última fase do movimento neo-realista português. Na Casa dos Estudantes do Império, nos anos 50, conviveu de perto com alguns dos futuros dirigentes da FRELIMO, MPLA e PAIGC.

Fiquemos com o final do livro:

Entre a vigília e o sono, já não distingue a realidade do sonho, percorre corredores devagar, sobe e desce escadas como o sonâmbulo que já fora e em pleno dia chegou a adormecer de pé, a cabeça encostada ao umbral da porta do quarto. Não chegou a ter do fim do império luso, de que episodicamente fizera parte, qualquer visão apocalíptica, como nunca chegará a pronunciar com igual e total indiferença as palavras invasão e libertação, ao pensar no novo destino já traçado para a sua terra natal“.

Mais uma boa contribuição de Carlos Veiga Ferreira, da Teodolito, para a cultura portuguesa.

 

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