Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 160 – por Manuela Degerine

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Tarde dourada

Desce pela esquerda um rego de água onde vou agitando o bordão enquanto trauteio a ária de Papagueno. Um atrelado de estrume ultrapassa-me e vai descarregar num campo amarelo: à minha direita.

Quando chego à Igreja de Santa Maria, caminhei mais cinco quilómetros, dez desde o albergue de Brialhos, vinte e oito de Pontevedra para cá; tudo continua ainda bem. A paisagem é amena: fresca, florida, soalheira. Passo Casalderrique, passo Eirigo… Poiso mais esta pedra num dos morouços, num dos moledos que acompanham o Caminho de Santiago. Os franceses chamam a estes montes que os andarilhos erguem à beira dos caminhos: “montjoie”. Monte de Júbilo. É na verdade júbilo que sinto quando me baixo para escolher a pedra e me levanto para – com cuidado – a poisar por cima das outras… Um gesto pre-histórico que chegou a este dia 13 de abril de 2013.

 Por todo o lado os habitantes aproveitam o primeiro sábado de sol, levam estrume para os campos, tojo e feto para os currais… Aqui acabam de plantar couve galega, dizem que para comer e dar aos animais; e, por debaixo da videira sem folhas, apoiada em altos espeques de granito, cresce um faval cheio de flores. Tenho a sensação de descobrir esta parte do Caminho de Santiago. A memória da primeira passagem é ténue, decerto por vir na conversa com Sérgio, a do ano passado tornou-se branca e glacial, a terceira é redonda, dourada e doce como um pão-de-ló.

Sou – às dezanove e quarenta – a primeira a chegar ao albergue que, embora vá no segundo ano de funcionamento, alguns roteiros ainda não assinalam; tem oitenta camas, cozinha e até lavandaria. As alberguistas, muito acolhedoras, inquirem de imediato se trago roupa suja, parece-me todavia absurdo pôr a máquina a funcionar com meio quilo, não quero alargar a minha pegada ecológica, prefiro portanto que ponham a lavar a delas, cujo volume mais justifica o consumo de água e energia. Eu lavo à mão, como é costume, estendo as calças e a camisola, aquelas secarão mas esta ficará molhada; como também é costume. Janto. Passo meia hora a manipular sacos, ponho a comida de amanhã na bolsa, o chocolate, as nozes, as laranjas, a massa, o pão com queijo, arrumo o que não é necessário durante a noite… Escrevo meia página de diário… Não mais. E consigo enfim deitar-me por volta das dez horas.

(Chegaram entretanto três uruguaios que também dormiram em Pontevedra na noite passada e têm pressa de chegar a Santiago de Compostela.)

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