O sorriso dos olhos tristes – um poema de Adão Cruz

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Cai sobre mim o amputado sorriso dos olhos tristes numa altura em que os corpos não bailam e as crianças já não são crianças

Não sei se me ouves e se me ouves não sei se entendes a arritmia do ventre das nuvens onde não entra o sol e se entra é o sol antigo dos olhos inteiros

Cerrado no grito que se não solta aqueço na sombra da memória as lágrimas frias tecendo de ternura a força quebrada que liga o sonho aos destroços da madrugada

O pão largo do teu corpo teima em não voltar para dentro de mim como se onada fosse o palácio das esperanças todas

O amor é por vontade minha e meu silêncio mas o sorriso dos olhos tristes acende a toda a hora a primavera

Confundimos a paixão com jornada de lágrimas e risos e suspiros e delírio onde a aurora desponta e onde começa a morrer o manso regato do bosque sombrio

Trocámos inconscientemente a água pura fugidia sinuosa por rectilíneas fábricas de vento e eu fiz do vento o hálito da minha boca estranha aliança entre o vinho e o génio entre o altar e o chão

Mesmo assim o sorriso dos olhos tristes renasce sempre num rio de pranto e corre e salta pelos campos em direcção à cabana onde ainda guardo o mel para as tuas feridas

Ilustração – reprodução de quadro de Adão Cruz

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