ENTÃO NÃO ERA CRIME PÚBLICO II por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Este menino que se faz homem quer trabalhar mas não pode, não tem disponibilidade interior para acabar a escolaridade, agora exigida.

Gosta de ler, foi criança leitora, é um adulto sem competências linguísticas para preencher formulários, para ir a uma entrevista…

Quer apenas um emprego, ter uma casa, ter silêncio interior para viver as mágoas de menino.

Não quer o ruído das novas tecnologias, quer o silêncio do afecto, o conforto físico de uma cama, de um quarto, de uma casa.

Os interesses nacionais rumo a uma sociedade competitiva vão eliminando pessoas válidas para quem o afecto, a honestidade, a lealdade são o caminho a trilhar. As teclas do computador erguem-se do teclado e levantam muralhas quase intransponíveis.

E agora?

Este menino de outrora, hoje homem, ou rompe a muralha a pontapé e salta para as notícias dos jornais, como mais um delinquente, ou chora sozinho, passa fome, dorme em albergues, aceita a prepotência do pai, até um dia…

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Este menino que cresceu com o corpo magoado, semeado de nódoas negras, de estômago, quantas vezes vazio, com uma alma generosa e solidária, acalentado por uma mãe passiva que tentava também sobreviver, foi violado e mal tratado.

Não era crime público.

 Era um comportamento socialmente reprovável, mas sem enquadramento jurídico. Era do foro privado, não da esfera pública. Do foro público era o insucesso destas crianças e o abandono escolar.

Este menino, com traumas privados, se tivesse engrossado a taxa do sucesso público seria, talvez, igualmente inábil no preenchimento dos formulários, nas entrevistas…a dor não passa…

Escola, sociedade, quando irás romper o silêncio?

Quem quer aprender quando nas veias lhe correm lágrimas, silenciosamente, vindas de uma nascente que só se estanca quando todos nós, cada um por si, se indignar e tornar público o silêncio sofredor de quem se torce de vergonha, de dor… na sua vida privada.

A vida privada é o substrato da vida pública!

Acordemos do marasmo de notícias bombásticas que nos fazem ficar constrangidos à espera que a realidade da próxima notícia “criança retirada à família de afecto na véspera de Natal” (Público 26/12/07/Lusa) se transforme por magia.

Deu-se um passo de gigante. A indignação decretou crime público a violência doméstica, os maus-tratos às crianças! Todavia, depressa o passo de gigante se tornou num pequeno passo, numa letra trémula… Crime público!

Agora é crime público, dormimos descansados no conforto do dever que alguém cumpriu.

Mas quem sinaliza, quem julga, quem luta tenazmente contra a violência doméstica e os maus-tratos às crianças?

Crianças choram, ou já nem choram, e é verdade que há pequenas / grandes fileiras de técnicos de educação, saúde, serviço social, voluntários a tentar lutar tenazmente, sofrendo com quem sofre… transformando a sociedade.

Fazendo quase o impossível…com uma mão cheia de sucesso e outra vazia de redes institucionais eficazes. Mas logo dedos lestos apontam e sentenciam “mas então, porque devolveram a criança aos pais, esta gente não sabe o que faz?”

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