A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 63 – por Sérgio Madeira

imagem163[1]Capítulo sessenta e três

— O nome completo do  tenente é Paulo Miguel Fragoso Câncio. – disse Ramos.  Fez-se silêncio –. Cecília, sempre impulsiva, quebrou-o:

– Uma coincidência? – Foi Norberto de Sousa que lhe respondeu:

– Não, minha senhora. Não houve qualquer coincidência – e perguntou a Ramos – dá-me licença? – Ramos assentiu com um gesto. – Tudo começou num sábado de Dezembro de 1972, em Xuvalu – olhou o tenente – O capitão Alves descreveu a operação como um ataque de surpresa a uma base terrorista, o inspector Câncio disse que não se podia deixar ninguém vivo – a voz tornou-se-lhe mais rouca – poupo-vos ao horror de descrever o que aconteceu. Não havia um só homem armado e a população foi chacinada… Conhecem o relatório que o padre Manuel, ou Manolo Ruiz, distribuiu pela imprensa e as entrevistas que deu. A da BBC ficou famosa….  – bebeu um gole de café – O massacre, gerou duas forças antagónicas. Logo ali, o tenente Guilherme Lopes e o agente Nachawi se enfrentaram. O ódio culminaria com a morte de Lopes degolado por Nachawi.

– Nachawi era agente da PIDE ou guerrilheiro da FRELIMO? – perguntou António.

– As duas coisas. Preso na Machava e barbaramente torturado, denunciou  tudo e todos. Passou-se para a polícia e foi criada a lenda do preso isolado durante anos. Os militares que foram ao campo libertar os presos políticos, encontraram-no numa cela, febril, com uma infecção no ferimento da perna. Com os elementos de identificação do irmão, criou-se a lenda dos dois irmãos em pólos opostos – um herói e um torcionário.  – dirigindo-se Alfredo – Lembras-te da promessa solene que fizemos de os executar a ambos?

– O meu pai foi assassinado e não executado – a voz do tenente  tremia.

– O seu pai assassinou, ou executou, muitas pessoas? Matou-as. Foi assassinado ou executado? Foi morto…

– Por si! – Foi morto por si! – gritou apontando Norberto.

– Quem lhe disse isso?

– O Afonso… O Afonso Nachawi.

–  Não nega que o conhecia – perguntou Ramos.

– Por que havia de negar?

– Como o conheceu? – o tom de Ramos era duro.

– É um interrogatório?

– Uma simples pergunta. Só responde se quiser.

– Conheci o general Nachawi em Lisboa. Recebi no Ministério da Marinha, onde estava colocado, um convite para uma recepção na Embaixada de Moçambique. O meu superior directo e disse-me que tinha de ir, pois alguém “muito  importante” me queria falar.

– Nachawi – disse Ramos.

– Sim, Nachawi. Que me disse ter sido um grande amigo de meu pai… E que ele tinha sido assassinado…

– E ele disse-lhe por que razão o seu pai foi… morto?

Fragoso respondeu sem olhar para Norberto, que formulara a pergunta:

– Porque ele, Nachawi e meu pai se opuseram ao massacre e os três oficiais responsáveis, um sargento, uma negra e um médico comunista, se tinham organizado para liquidar o meu pai, o que já tinham feito, e a ele Nachawi.

– E Isso quando foi? – a pergunta veio de Ramos.

– Há um ano… 14 meses.

– Bem – comentou Norberto – O general esqueceu-se de lhe dizer que o capitão Lopes foi degolado por ele, que o major Sousa foi «suicidado» por ele, que eu fiquei tetraplégico porque ele armadilhou o meu carro, que Maria foi morta na sua casa dos arredores de Lisboa, por assaltantes…

– Não, não sei nada disso…

– Talvez não saiba, tenente – atalhou Ramos – mas do sargento Costa e do padre Manuel, o senhor não pode dizer que não sabe.

(Conclusão do capítulo 63 e Epílogo, amanhã)

 

 

 

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