Memórias de uma cobaia – por Carla Romualdo

Um Café na Internet

A descoberta confirmou-se no dia em que cumpri 15 anos. Os exames médicos, cada vez mais minuciosos, arrastavam-se há meses e, embora nenhuma explicação me fosse dada, não era difícil de prever que em breve chegariam à conclusão que perseguiam. Nas semanas anteriores, a presença das silenciosas criaturas de bata branca tinha-se tornado habitual. Circulavam pela casa sem qualquer espécie de controlo, a ponto de se ter tornado perfeitamente banal que eu despertasse a meio da noite com uma dessas criaturas à cabeceira da minha cama, a aplicar-me eléctrodos na testa de forma a estudar-me os padrões de sono.

E assim, no dia em que cumpri 15 anos, os meus pais sentaram-se comigo na sala de jantar para anunciar-me que eu estava nas mãos de uma equipa de especialistas no estudo da resposta sensitiva à estimulação neuronal, e que havia sido escolhido, de entre um grupo alargado de adolescentes, como objecto central de estudo. Contaram-me com evidente orgulho que me aguardava uma existência notável. Seria uma celebridade e as gerações vindouras teriam a agradecer-me o contributo inestimável para os avanços científicos que transformariam a humanidade.

Conduziram-me à minha nova casa, um laboratório desprovido de janelas e construído como um bunker de cimento, com corredores estreitos e salas de luz branca. Despediram-se rapidamente, e pareceram-me aliviados por poder deixar-me.

As sessões tiveram início nesse mesmo dia. Rodeado de sensores capazes de captar e registar cada indício de actividade neuronal, eram-me exibidas, ao longo de três sessões diárias rigorosamente cronometradas, imagens seleccionadas para obter uma resposta. Todas as sessões eram compostas maioritariamente por imagens de guerra, mortes violentas, corpos estropiados, vítimas de terríveis explosões, de incêndios, de balas, de torturas inimagináveis. Ante os meus olhos desfilaram os mais negros fantasmas da humanidade, as suas mais densas sombras.

No final de cada sessão, sucediam-se imagens reconciliadoras, da natureza benévola, com plácidos cursos de água e céus rosados, animaizinhos de aspecto ternurento ou crianças risonhas, e a elas ia assistindo com o torpor de quem, despertado do pesadelo, ainda duvida da libertação.

Pouco a pouco, o meu limiar de resistência ao horror foi-se ampliando e as sessões foram sendo quase por inteiro preenchidas com imagens cada dia mais horrendas, até eu me tornar capaz de olhá-las sem pestanejar, sem que a respiração se encurtasse ou o ritmo cardíaco sofresse alterações. Deixaram de ser necessárias as imagens tranquilizadoras. Vieram consultores militares, artistas gráficos, neurologistas. Falavam em voz baixa entre si, tiravam notas intermináveis e raramente me dirigiam a palavra. Olhavam-me com respeito e temor. Eu superara o limiar de resistência tido como inultrapassável por um ser humano. Tornara-me invulnerável. Em cada olhar que trocavam eu decifrava a mesma interrogação: qual o destino de um homem incapaz de sentir horror?

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