Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
PARTE IV
(CONTINUAÇÃO)
…
3. Consolidações em simultâneo, 2011-13
Os efeitos de repercussão descritos acima indicam que os efeitos podem ser consideravelmente maiores quando todos os países se consolidam em simultâneo. Esta situação foi o caso nos últimos anos. A tabela 4 abaixo mostra os esforços de consolidação nos últimos três anos (a mudança nos saldos primários estruturais das administrações públicas, como percentagem do PIB potencial) em 2011, 2012 e 2013. De longe a maior consolidação fiscal teve lugar na Grécia, 9% do PIB com base na mudança do saldo estrutural ao longo destes três anos. 8 Portugal comprometeu-se igualmente a fazer grandes consolidações, cerca de 7% do PIB, enquanto o ajustamento na Irlanda ascendia a 4% ao longo destes anos. As medidas de consolidação em França, Itália e Espanha ascendiam a mais de 3.7, 4 e 4,5% do PIB respectivamente, enquanto a Alemanha se comprometeu também a medidas de grande consolidação, apesar de um maior espaço orçamental e de registar baixos custos de financiamento público devido a uma ‘fuga para a segurança’ feita pelos investidores. O saldo estrutural alemão melhorou de r 2,6% do PIB. Em menor extensão, o mesmo se pode dizer para o resto do núcleo central da zona euro, com uma melhoria de 1,5% no PIB, apesar de também globalmente gozar de posições orçamentais mais favoráveis e sem pressão urgente dos mercados financeiros. 9
O impacto destas consolidações orçamentais no período de 2011-13 é agora simulado com o modelo. Como as informações detalhadas sobre a composição das consolidações reais não estão disponíveis, presume-se que a composição é igualmente equilibrada entre medidas pelo lado das despesas e das receitas. Presume-se também que aos agentes falta uma capacidade de perfeita previsão acerca de futuros planos de consolidação orçamental e há incerteza inicial sobre as exactas alterações na política orçamental (ver anexo 2 para uma análise de sensibilidade).
A tabela 5 mostra o impacto macroeconómico da consolidação orçamental feita em 2011-13. Esta simulação capta o impacto negativo das medidas próprias de cada país assim como as repercussões negativas das medidas de consolidação dos outros países. A Figura 2 compara os efeitos do PIB sob o cenário simultâneo com os cenários de quando um país teria agido sozinho, e a diferença mostra a dimensão dos efeitos de reacção entre os países. A queda máxima no PIB é maior e está entre 1,6 e 2,6% quando as repercussões intra-zona euro são tidas em conta.
A queda no PIB é maior na Grécia e em Portugal, os dois países que fizeram os maiores esforços do programa de austeridade. Os multiplicadores variam em torno de 0.5 (IE) e em torno de 0,9 (IT) e dependem principalmente do grau de abertura. Nos primeiros anos todos os componentes da procura interna são afectados negativamente pela consolidação, com acentuada quedas no consumo privado e investimento
Nos anos seguintes o PIB cai mais ainda e tanto quanto são introduzidas as medidas adicionais de consolidação. O esforço de consolidação total só ganha credibilidade plena depois de três anos, ou seja, em 2014, quando as expectativas sobre um mais nível de dívida e de baixos impostos futuros geram efeitos positivos de confiança que conduzem a uma recuperação. O facto de que as taxas de juros nominais sejam assumidas como constantes até ao quarto ano, mas a partir daí, são reduzidas em resposta à uma mais baixa inflação e ao PIB também dinamizam o crescimento.10
O impacto deflacionário dos choques conduz a uma melhoria de competitividade, mas enquanto isso só poderia ajudar a impulsionar as exportações se um país está a agir sozinho pois sob as consolidações da zona euro todo estes benefícios são parcialmente perdidos. Com as importações em queda devido à contracção da procura, a balança corrente melhora, até 1,6% do PIB para Portugal e 2,3% do PIB para a Grécia. Note-se que a consolidação na Alemanha também melhora a balança corrente alemã até 0,6% do PIB.
O abrandamento do crescimento reduz as receitas fiscais e leva ao aumento de despesas relacionadas com o desemprego. Como resultado, as reduções ex post sobre os défices orçamentais são significativamente menores do que os esforços orçamentais ex ante. Os rácios de dívida-PIB aumentam após as consolidações no curto prazo (e são nesse sentido restrito “contraproducentes”) e podem levar até cinco anos antes de qualquer melhoria visível nos rácios de dívida-PIB (Figura 3). No entanto, a deterioração em rácios de dívida é temporária e é seguida a médio prazo de grandes reduções no ratio dívida / PIB. Quanto maior o rácio inicial da dívida, mais forte será a deterioração a curto prazo dos rácios de dívida que se seguem à consolidações (EL). Mas mesmo no caso da Grécia, a melhoria a médio prazo na relação dívida / PIB é grande, até 40 PPS. por 2018.11…
(continua)
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Para ler a Parte III deste trabalho de Jan int’t Veld, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:


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