DE LONDRES MANDARAM-ME UM GRANDE POSTAL ILUSTRADO – por JÚLIO MARQUES MOTA

PARTE IV
(CONTINUAÇÃO)

Aliás uma consciência crítica desta realidade europeia é-nos dado por Jan in ‘t Veld no seu notável trabalho sobre as políticas de consolidação orçamental na Europa, calculando os impactos das políticas de austeridade sobre os diferentes países. Diz-nos este alto funcionário da União Europeia e o principal responsável pela modelização macroeconómica desta Instituição.

“ O estímulo orçamental nos países excedentários

A coordenação política optimal na zona euro teria exigido uma diferenciação dos esforços de consolidação, dependendo do espaço orçamental para minimizar as repercussões negativas. Os países periféricos tiveram maior urgência na consolidação, dado que estes tiveram que enfrentar a forte pressão dos mercados financeiros, tendo mesmo em alguns casos, perdido o acesso a estes mesmos mercados . Estes países tinham poucas opções para além de embarcarem na consolidação considerável que assumiram.

Todavia também tinham grandes défices na sua balança corrente e com construíram as grandes diferenças em termos de sustentabilidade externa. Uma maneira para crescerem e reduzir o seu endividamento seria através do crescimento materializado em excedentes na balança corrente [os modelos led-growth via exportações]. O ajustamento na sua balança corrente poderia ser apoiado por alterações simultâneas [e inversas ] em países da área do euro que apresentam um grande excedente na sua balança corrente. No entanto, a simetria dos ajustamentos orçamentais em todos os países da área do euro, tem, ao mesmo tempo, dificultado esse ajustamento, com as repercussões negativas das consolidações na Alemanha e noutros países do núcleo da zona euro a agravarem ainda mais o crescimento nos países deficitários. Estas repercussões negativas como já foi dito tornaram o ajustamento nos países ditos periféricos ainda mais difícil e exacerbaram ainda mais a degradação temporária dos rácios da dívida relativamente ao PIB nos programas e nos países vulneráveis.

O grau de consolidação na Alemanha e noutros países do núcleo central da zona euro estava em contraste com o espaço financeiro dos países que estavam em crise. A ‘fuga para a segurança’ tem levado à redução para níveis recorde nos custos dos empréstimos para a Alemanha e para outros países de notação AAA: com os rendimentos das obrigações de dívida pública a 10 anos a caírem para níveis de 2% ou mesmo menos. Mesmo que os rendimentos tenham recentemente subido um pouco, continuam a permanecer baixos quando aferidos por padrões históricos. Em termos reais, estas taxas são próximas de zero ou mesmo negativas.

Ainda na dinâmica da consolidação das finanças públicas, o investimento público foi reduzido, em que os planos de investimento de grandes infra-estruturas foram desmantelados, acrescendo que igualmente foram adiadas as obras de manutenção. Em vez disso, as baixas taxas de juros poderiam ter sido utilizadas pela finança para financiar um aumento nos gastos públicos, através da criação e realização de grandes projectos de infra-estruturas públicas que devem, mesmo quando financiados pela dívida, ter uma maior taxa de retorno. Isto é válido para a Alemanha, mas também para outros países do núcleo central da zona euro como os Países Baixos, a Finlândia e a Áustria, atingida pela recessão de formato em W e que poderia beneficiar de um estímulo provocado pelas despesas produtivas.

Embora esses efeitos de repercussão do PIB não sejam insignificantes, também é evidente que eles não fornecem uma cura milagrosa para os países deficitários. Um estímulo temporário sozinho no núcleo central da zona euro não pode levar aos ajustamentos da balança corrente que são necessários nos países altamente deficitários. Historicamente, o ajustamento da balança corrente em países deficitários tem sido mais viável pela redução de despesas do que sobre a mudança na estrutura da despesa [classicamente obtida através da variação da taxa de câmbio] (Lane e Milesi-Ferretti 2012).

Isto naturalmente não enfraquece os argumentos a favor de um estímulo fiscal nos países mais fortes do núcleo central da zona euro. O exemplo de um aumento do investimento público, mesmo que apenas por razões internas, é um exemplo bem elucidativo. Os baixos custos dos empréstimos público de longo prazo podem ser aproveitados e mesmo que estes tenham subido recentemente, eles estão ainda muito abaixo das estimativas mais pessimistas das taxas sociais de retorno sobre as infra-estruturas públicas.

Figura 7 – Estímulos orçamentais na Alemanha e no resto da Área Euro: aumento das despesas de investimento governamental em de 1% do PIB.”

Ça ira - VIII

Poderíamos continuar mas deixemos o texto deste alto funcionário por aqui. E tudo isto no quadro do modelo macroeconómico de que se serve a União Europeia. Com uma politica de expansão orçamental na Alemanha, os seus escandalosos excedentes diminuiriam, os também escandalosos défices dos países em dificuldade melhorariam e teríamos por aqui uma trajectória de crescimento para a Europa e para a saída da crise, com muto menores custos e uma sa´+ida efectiva da crise, contra a situação actual em que não há luz sequer ao fundo do túnel. Trata-se de uma hipótese levantada e economicamente analisada por um alto funcionário de Bruxelas e tecnicamente dos mais importantes. Curiosamente uma hipótese que é levantada depois das fortes críticas da Administração Americana contra a política restritiva imposta pela Alemanha à Europa! Curiosamente, então.

Mas avançar neste caminho pressupõe uma outra mentalidade, uma mentalidade europeia e não uma mentalidade imperial sobre a Europa, que é a actual posição alemã, que pretende apenas uma Europa germânica, ao serviço da qual se encontra igualmente a Comissão Europeia.

A análise sobre os Estados Unidos acima feita, mesmo que sucinta, considera que a Administração Obama não tem nada a ver com o bando de salteadores de uma Europa quase perdida, onde perante a mais profunda recessão que a Europa directamente já conheceu as políticas seguidas por esta, como se da fidelidade de uma sombra se tratasse, são as de uma profunda austeridade, com um dado curioso indicado pela Cruz Vermelha Internacional: é a primeira vez no capitalismo moderno que em plena crise, e com esta a estender-se por toda a Europa, se corta praticamente em todos os países nos orçamentos da saúde! E isto ao contrário de Obama que mais não faz em termos de política expansionista porque os republicanos, em maioria no Congresso, não o deixam fazer.

Mas voltemos ainda ao postal ilustrado e de Londres enviado. Aqui, e de novo, mais uma outra pergunta me assalta: mas um puro analista dos mercados como o é o meu amigo a viver em Londres, que não é um Satyajit Das, um Ben Fine, um Jorion, um Robert Wade, um François Morin, um Peter Whal, um Gerard Epstein, homens de grande bagagem técnica e cultural, não seria capaz de escrever um texto com esta qualidade literária, como a tem o texto do postal abaixo reproduzido! Para além de que alegoricamente muito forte. E, então, de quem será este texto?

Porém, se tivermos em conta que a especulação vem desde os Gregos – diz-se até que um grande pensador grego (Thales de Mileto) teria sido o inventor dos futuros, com a venda de azeite de azeitona que não estava colhida e de oliveiras que também não eram as dele, com o aluguer das tulhas de azeite, ainda a safra do ano anterior mal tinha acabado  para aí, no ano seguinte, se colocar a azeitona que não tinha mas em que ele previa que a safra seria excepcional- será o texto referido uma análise da realidade actual e do absurdo do desgoverno de Bruxelas, mas disfarçado com a palavra corte pois Bruxelas é um reino onde não se sabe bem quem reina, ou será antes, este texto, um texto bem antigo e por brincadeira é-me assim enviado a relembrar que a História se repete, mas agora de mal a pior, de drama transformado em tragédia? Mas sendo assim, quem o terá escrito? Perguntas em que fico a pensar!

Júlio Marques Mota

(continua)

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Para ler a parte III desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/01/02/de-londres-mandaram-me-um-grande-postal-ilustrado-por-julio-marques-mota-3/

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