
Numa oficina metalúrgica, o rapaz e a rapariga circulam por entre prensas. Quando ela passa, surge a cobiça no olhar dos operários. O rapaz suspende o passeio e pergunta:
– És mesmo uma náufraga do tempo? Qual é o teu nome verdadeiro? Leonor ou Lianor?
– Afonso, agora sou Leonor porque tu queres, mas Lianor eu já fui. Sou, fui, sui fou sui fou…
– Deixa-te de palhaçadas. Estás a ver o que fazem estas máquinas?
– Sim, estou a ver. Servas fidelíssimas poderiam ser veramente as vossas máquinas. Mas estando vós em coita de amor, vassalos delas vos tornastes. De sorte que não tendo elas alma própria, por equidade estais vós dispostos a renunciar à vossa, por isso quedais colhidos pelo desamor. Passais a tratá-las como a homens e a estes como àquelas. Ides assim convertendo o mundo em verdadeira casa de loucos.
– Lianor, não exageres…
– Não, não estou a exagerar. Arte e engenho tendes vós para produzir de tudo para todos. Contudo observo que poucos de vós fruem de tudo e muitos de vós fruem de nada. Prestes o naufrágio e continuais dormindo como em bonança.
In LIANOR
