CONTOS & CRÓNICAS – Todos os dias os barcos saíam para o mar – por António Sales

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à memória do Armando Ventura Ferreira

Todos os dias os barcos partiam para o mar. Primeiro grandes, depois pequenos, aparecendo e desaparecendo no balanço das águas, partiam os barcos para o mar todos os dias.

         Na areia da praia ficavam os meninos dos pescadores a varrer o cais em brincadeiras de espuma e as mulheres, emparedadas em pequenos grupos, recolhendo cristais de sal   nos olhos de luto. Garridos e curiosos os turistas passeavam com as máquinas fotográficas recolhendo a vida ao invés.

         Assim acontecia, de facto, todos os dias aproximadamente uma hora antes do meu jantar, antes do meu café na esplanada do Bento, antes do meu passeio pela avenida marginal. Acontecia quando o sol começava a descer para o ocaso, ruborizado e gordo, tomando colorações fantásticas que invadiam as águas com o fogo da sua luz amarela ou rubra como o metal fundido, ou de um laranja hipnótico Eu passeava vadiando à espera da noite guiada pelos luzeiros pequeninos a tremelicarem, distantes, como se fossem sinais morse a golpearem a solidão dos corpos das mulheres. Qual manto de recolhidas mágoas o nevoeiro escondia as embarcações que desapareciam na barragem branca das ondas como se houvessem penetrado no território dos monstros marinhos e caminhassem à deriva transidos de pavor.

         Quando o olhar cego do tempo apertava no seu útero os pescadores, eu ouvia o grito angustioso das buzinas dos barcos ou, na bonança, a carícia da brisa a brincar nas coxas da praia. Então, no desfecho da faina, os turistas fotográficos condensavam a aventura assistindo à recolha das redes, descarregamento do peixe. ouvindo as pragas salgadas saltando os lábios dos homens marcados pelos estigmas da conformação. A minha tranquilidade colidia com o descontentamento daqueles pobres e esquecidos guardadores do oceano. Bertolt Brecht  era insuficiente para me aproximar do sacrifício daquela gente e assim encontrar um espaço no meu cérebro que me libertasse de pensar naquela sepultura de águas, de homens entregues a um macabro jogo pela sobrevivência no qual a morte vale o preço da vida.

        Quando a vaga se agitava em cachão, espalhando o seu uivo branco pela areia, os remos ficavam repousados a aguardar o cansaço dos ventos. Já de longe a onda vinha doida, possessa de fúria, como se no seu ventre a fome de corpos fosse insaciável. Embrulhava-se, majestosa, fervilhante de baba, e rugindo como se um ódio dos infernos a dominasse, esmagava-se na terra macia. Perdido o azul pálido que encanta os poetas o mar tornava-se num abismo verde  pardacento, o verde dos fundos putrefactos.

         A praia desolava-se na tristeza de um tempo inútil. De olhos moribundos os homens consumiam-se encostados aos muros ou pelas portas das tabernas. Erravam num cirandar sem fim e sem sentido ou deixavam-se abandonar por ali, as pernas bambas, os bonés atirados sobre as orelhas,  os braços caídos num jeito de não sei quê, as calças desatadas das barrigas das pernas.

         Nesses pedaços de tédio e nostalgia eu imaginava os pescadores noutra órbita cósmica da sobrevivência que não a daquele amarrotamento: homens de campo plantando batatas ou guiando tractores; homens de fábricas vivendo sem o sol e o mar a dar-lhes na pele; homens urbanos escondidos em escritórios, comércios e três assoalhadas. Este transplante de fantasia conduzia-me por veredas do pensamento em que as engrenagens sociais apareciam desajustadas. Como situar aqueles homens entre comezinhas preocupações de comprar um automóvel para passeios domingueiros, o frigorífico ou a máquina de lavar roupa, férias no campo ou na praia? Os seus olhos profundos e líquidos penavam no penhorista, nas redes, no peixe, na lota, na broa de milho, no caldo de couves com chouriço e toucinho; pensavam nas mulheres e nos filhos à sua maneira, aquela maneira conformada como pensavam na morte a quem se sacrificavam como vítimas de um destino inexorável.

         Era-me difícil imaginá-los a lavarem os dentes com Super Pepsodente, ensaboarem o rosto com sabonete Lux, a procurarem roupas com marcas da moda. A televisão da loja do mestre Inácio, que trazia até eles mensagens de mundos distantes, representava a sedução do impossível. E, no entanto, acorrentados a uma espera milenária a engrenagem mantinha-os entretidos no jogo das hipóteses pelo que talvez nem sequer pensassem em vingar-se das suas gerações sacrificadas.

         Corria neles uma saudade (ou uma raiva?) a finar-se nos botequins entre a paciente tarefa do coser das redes e a diversão ingénua do jogo da malha. Assim se entretinham a conviver com os limites do ma encerrados em seis palmos de vida pois mesmo quando existiam por sessenta, setenta ou oitenta anos era como se tivessem visto apenas um só dia.

         Depois a vaga e o vento viraram murmúrio num chamamento sensual que zumbia aos ouvidos e punha o sangue em turbilhão; a onda reanunciava-se fecunda; as crianças corriam, destemidas, para a beira-mar a molharem os pés; as sereias, de longe, mostravam os seios róseos e erectos apoiados na superfície líquida. De novo os pescadores corriam para os barcos e partiam para o mar á conquista de um fruto da vida. Dobrados pelos rins lançavam as redes e, com os braços vigorosos tendidos no vaivém do puxa-puxa, recolhiam os sorrisos púrpura das deusas do oceano como prémio da existência concentrado nas escamas dos peixes.

         Durante anos, talvez séculos, assim aconteceu. Com a previsão cientifica de um cálculo planetário eles partiam todos os dias para o mar. Como Ulisses vogavam errantes por um destino solitário que apenas compreendia as marcas de um tempo sem ponteiros a rastejar nos corpos fatigados. Apostrofavam as raízes da fortuna que os despedaçara nos ventres maternos; enfureciam-se como messes graníticas ondee era difícil ler outra expressão que não fosse a dos horizontes de água cravados no fundo das pupilas.

         Uma tarde, porém – aí  pelas sete horas, vi todos os barcos repousados na areia. Procurei um cigarro, um livro de Gunter Grass ou de Margurite Duras ou de Cardoso Pires,ou o Paris Match com as notícias do mundo ilustradas e em cores como se fosse indispensável conferir um certo sortilégio às grandes tragédias. Deixei-me embalar pelo ruído macambúzio de uma esplanada, na espera que acontecesse alguma coisa pois pressentia naquele silêncio o mau presságio dos barcos ancorados.   

         Estive tempo vendo passar a turistada no seu passeio descontraído de fim de tarde. Bebia-se, fumava-se, conversava-se, beijava-se, gozava-se o prazer de uma existência sem inquietações. A tarde cedeu noite sem que os barcos entrassem na água ou os homens viesse acariciar os cascos envelhecidos.

         De madrugada, quando o sol ainda se esforçava por romper a neblina, fui despertado do sono de cidadão em férias por um berro cuspido com ódio. Nu, ergui-me de um salto e corri à janela. Em baixo a figura de um capitão da guarda agitava-se apopléctico em frente dos seus homens. Movia-se, irrequieto e nervoso, com o pingalim batendo, incessantemente, no cano dos botins. Cinquenta metros adiante os pescadores e as mulheres tentavam forçar a muralha militar. O capitão vociferava ameaças gritadas com olhinhos cúpidos de violência. De nada lhe serviam as palavras, nem a fisionomia quadrada, nem o pingalim, nem a presença dos subordinados prontos a intervir. Os cães trabalhadores mantinham-se formes, em molhe, os pés descalços a doerem na gravilha do alcatrão, as mulheres cheias de luto sem queixume , os olhos fixados nos rostos dos guardiães da ordem social.

         Ninguém arredou pé. A força carregou mas ninguém ergueu os remos ao mar largo e de curvas tentadoras. Ninguém rompeu nem fraquejou em nome do comer para a mulher e para os filhos. . Desse modo, diziam eles, não desejavam comer.

         Foi essa a primeira de muitas manhãs em que os barcos não partiram para o mar. Nem um. Todos por ali ficaram repousados na areia, os remos recolhidos, os cascos tombados sobre a direita ou sobre a esquerda.

Algueirão, Julho, 1968                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    

                                                               

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