ADULTÉRIO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

Horácio e Letícia casaram e foram viver para a Capital onde o marido, a convite da Universidade, lecionava e investigava.

Regressaram a Palmira dez ou doze anos depois. Reencontrei-a numa recepção no Palácio do Governo. Entretanto eu já casara e enviuvara. Quem tomava conta dos meus filhos era Sara, a minha cozinheira preta. Horácio e Letícia não tiveram filhos. Uns sussurravam que a culpa era dela, mulher estéril. Outros diziam que era dele, pois só pensava nas lições de História, não aprendia as lições de cama…

Amigo que eu era de Horácio, fiquei constrangido ao rever Letícia. Não quis perturbá-la, por isso não evoquei as nossas brincadeiras da juventude. Mas no terceiro ou quarto encontro e, isto passou-se durante um banquete na Casa Grande, não me aguentei:

– Letícia, tu lembras-te…?

Não precisei dizer mais nada, reagiu, sorriu,  antecipou-se:

– Pensei que já te tinhas esquecido…

Voltámos depois a encontrar-nos à sombra do mesmo pinheiro manso. Jurou que nunca antes traíra o marido, mas que eu era o grande amor da sua vida, por isso não pudera resistir… Não acreditei, senti que ela só queria variar. Sequiosa, tirou a roupa toda.

Tentei inibir as minhas habilidades, afinal ela era uma senhora… Mas ela odiava as contenções. Começou a pedir sempre mais, a exigir que eu lhe ensinasse tudo o que sabia. Acabei por mostrar-lhe quanto aprendera com as coristas em tournée. Gostou muito, desvairou.

Numa das vezes cometi maldade:

– Por que é que tu não contas ao Horácio o que andamos a fazer?

– Tu és louco?

– Não, não sou. Ele é um tipo compreensivo, conheço-o muito bem. Era capaz de não se importar, ele gosta muito de ti, só quer a tua felicidade.

– Achas?

– Acho pois. Até acho que ele gostava de assistir às nossas cenas. Faz de conta que ele está a ver-nos, ali atrás daquela faia. Mostra-lhe o que tu sabes fazer comigo…

Ficou assanhada com a ideia, deu-lhe a fúria:

– Ai que bom, ai que bom…

Ao acabarmos, abraçou-se a mim:

– Eurico, tu és doido, nunca mais te largo…

Mas largou. Fartou-se e eu fartei-me.

4 Comments

  1. Três coisas:
    1) Está saindo fumaça do café, dá até pra sentir o cheiro daqui. Mas, é vontade de café mesmo. Só café rs rs
    2) Depois disso a Letícia não ficou prenha???
    3) O “senhora” é porque ela era casada ou porque era velha? Santa não era rs
    4) Por fim, só tomaram alguns cafés, né?
    Peço licença para comentar.
    Vejo o sexo como um complemento de uma afinidade extrema, já que se trata de algo tão íntimo. Não considero isso é uma repressão da sexualidade, mas, apenas o maior presente de inteira entrega que uma pessoa pode dar a outra, e quando se entrega a outra inteiramente, na verdade também presenteia a si mesmo. Então, se as pessoas podem alcançar o extremo, um capuccino com canela, porque perdem tempo com cafés?

    Mas, tem pessoas que vê o sexo como uma necessidade, como um cão que segue o cio, que não valoriza seus corpos e suas descobertas. Como tomar um café, acender um cigarro. E, talvez essas pessoas substituam esse “nirvana” no sexo por outras atividades que possam lhe dar prazer parecido.

    É, uns gostam de tomar café escondido e outros de capuccino com canela. Cada um cada um.

    Ótimo texto, rendeu minha reflexão.
    Abs

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