CARTA DE VENEZA – 70 – por Sílvio Castro

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  “Onegin, do coreógrafo russo Boris Eifman, grande sucesso em Veneza“

 

                No quadro geral das temporadas artísticas anuais de Veneza, aquela do ballet ocupa sempre uma posição de marcante saliência. Na temporada 2013-2014, apenas iniciada, o espetáculo de inauguração trouxe uma grande e vivida experiência estética para o público do Teatro La Fenice, com o Onegin, de Boris Eifman, numa excepcional interpretação do Eifman Ballet de São Pedroburgo.

                Apresentando-se por cinco exibições, de 18 ao 22 de dezembro de 2013,  com o ballet em dois atos, a partir de uma versão que Eifman dá ao romance Eugênio Onegin 1833), de Alexandre Puškin, a sua coreografia plena de invenções arrebatou por cinco vezes o público veneziano.

                Como é de conhecimento geral, o romance pusquiano foi realizado em versos e dividido em duas partes. Alcançando de imediado grande sucesso, de público e de crítica, transformou-se imediatamente num grande sucesso, influenciando a literatura russa contemporânea e assim prosseguindo nos tempos sucessivos. Os maiores escritores da Rússia, entre os quais Gogol, Dostoeviski, Turguenev, se inspiraram na obra-prima, tendo o primeiro declarado:

“A natureza russa, a alma russa, o carater russo…  a língua

russa se refletiram em Puškin com uma pureza, e numa tal beleza purificada como se reflete a natureza do campo na superfície convexa de uma lente.“

 Enquanto, nesse mesmo sentido, Dostoeviski vai mais adiante:

“Poema não fantástico, mas palpavelmente real, no qual está encarnada a verdadeira vida russa com uma tal força criativa e com um tal perfeição qual antes de Puškin jamais existira; talvez não existiu nem mesmo depois.“

A influência do Onegin pusquiano não atinge tão somente a

literatura, mas igualmente o campo da ópera lírica. Nele se inspirou Pёtr Ilič Čajkovskij para a sua Eugenio Onegin. Na sua inventiva coreografia, Boris Eifman toma alguns momentos das danças da ópera do grande mestre da música contemporânea, e isso em particular a partir do II ato da mesma.

                A coreografia que entusiamou por cinco vezes o Teatro La Fenice se serve de uma feliz reunião da música oitocentista de Čajkoskij com aquela contemporânea de Alexandre Sitkovesckij, indo da pureza quase clássica do romântico autor de a Ode à alegria, até o rtrmo exaperado de rock que vem dada em certa cenas à música do compositor russo nosso contemporâneo. Assim fazendo, Eifman apresenta o seu Onegin que partecipa de dois tempos, numa sábia integração que comove sem cessar o grande público veneziano. E os aplausos se propagam pelos espaços setecentistas do Teatro magicamente restaurado depois do terrível incêndio de 1996.  

                Assim cria Boris Eifman a sua coreografia. Os personagens ali estão todos, de Tatiana a Olga, as duas irmãs Larin que catalizam os sentimentos e as diversas forças da trama sempre fiel ao original do romance, mas ao mesmo tempo muito diverso dele. Tatiana como que rouba as cenas, em geral, mas a irmã Olga lhe serve de significativo pendant; até o quase frívolo e mundano jovem Eugênio Onegin, sempre ligado ao seu grande amigo, o poeta romântico Vladimir Lenskij, Este é noivo da vivaz Olga, enquanto que a malincólica Tatiana vive sempre à espera do amor sonhado. Este lhe chega com o aparecer de Onegin, mas não vem retribuido pelo frívolo representante da aristocracia de Pedroburgo. Este, para tentar superar o seu incessante tédio existencial, numa festa de baile passa a cortejar Olga. Daí nasce um conflito entre Onegin e Lenksij, conflito que se conclui na tragédia do golpe mortal que Onegin desfere ao amigo. Atordoado pelo ato impensado, Onegin desaparece nos campos enevoados.

Passados vários anos, de retorno a Pedroburgo, Onegin

reencontra Tatiana esposa de um general cego. Onegin sente que sempre amou Tatiana e lhe confessa os seus seuntimentos. Esquiva e fiel ao seu novo estado, Tatiana reconhece de amá-lo sempre, mas renuncia a qualquer forma de encontro, fiel ao homem que nela confiou, esposando-a.

                Tudo isso Eifman transforma num ballet de constante magia. O Teatro La Fenice parece reviver os maiores momentos passados com os bailarinos e coreógrafos russoss dos mais diversos tempos. Desde aquele inicial, quando a genialidade de Nijinskij trouxe para Veneza a beleza incontrolável da coreografia com que corporifica ainda mais a grande música de Strawinskij.

De Nijinskij a Boris Eifman, o maduro público veneziano goza os

extremos do grande ballet.

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