EDITORIAL – “A ORDEM NATURAL DAS COISAS”

Imagem2Era uma vez um país onde nada acontecia. Um país cinzento, amorfo, onde imperava a vontade de um ditador velho, tacanho e insensível – um defensor de uma moral rígida, de matriz católica e reaccionária, ao serviço de uma depravação social em que algumas dezenas de famílias tinham proventos milionários e milhões de seres humanos, aqui no rectângulo europeu e nas colónias, eram privados de direitos fundamentais. Como se um bordel tivesse contratado um dominicano de um rigor ascético como porteiro. A «ordem natural das coisas» – era a existência de ricos e pobres. Os primeiros estavam privados de ascender ao Paraíso; dos segundos seria o reino dos céus…

Os que eram jovens naquele ano de 1961, lembram-se de como este nosso país era exasperante. Quem tinha cinquenta ou sessenta anos, falava de coisas «antigas» como se tivessem ocorrido na véspera – o «reviralho» de 1927, a Marinha Grande em 1934… Quem tinha vinte anos e não gostava da ditadura, pensava que, excluindo estes acontecimentos do pleistoceno inferior, neste país nada acontecia. E de repente, começaram a acontecer coisas.

Naquela manhã de 22 de Janeiro soube-se que o Santa Maria tinha sido assaltado e desviado da sua rota. E nunca mais parou. Cerca de um milhão desses jovens que se queixavam de monotonia passaram pela Guerra Colonial. Outros, por consciência política ou para não correr riscos, deram consigo em terras estrangeiras. Foram 13 anos em que os jovens tinham mais coisas para contar do que os velhos.

Esta gente que tomou de assalto o poder político e que acha que ali chegou por mérito, porque obteve diplomas em universidades de pacotilha ou porque teve a sageza de se colar a um padrinho poderoso, esta gente nem sabe como é parecida com os títeres que um bonecreiro chamado António movia a contento dos patrões. E fê-lo com competência, crueldade e tacanhez durante mais de quatro décadas.

 A «ordem natural das coisas» é tudo menos natural. O que é natural é que os seres humanos um dia abandonem leis que lhes chegam da bruma dos tempos, as leis cavernícolas da prevalência da força, e se humanizem. Estes títeres ridículos, enfatuados, orgulhosos da própria imbecilidade, um dia serão julgados e talvez a pena seja leve – o olvido completo. Na História, nem uma linha merecem.

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