CONTOS & CRÓNICAS – O Guarda da Casa de Deus (2) – por António Sales

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(Conclusão)

         Os padres, pelo menos os padres à antiga, beberam nos apóstolos a faculdade da paciência. A convicção na eternidade da alma concede-lhes una filosofia do tempo que lhes permite esperar acocorados como sapos antes de lançarem a língua sobre os insectos a devorar. Januário optou por esta alternativa sabendo de antemão que levaria a melhor

      A vida, diz-se, tem muitas voltas. Imprevisíveis voltas, surpreendentes voltas. O povo garante que isto de acontecerem coisas inesperadas e surpreendentes são caprichos do destino.

         Marrafa não acreditava no destino. Seria mesmo o único ser humano naquela terra que se dava ao luxo de desdenhar do destino. A seu modo sempre entendera que o destino eram as pessoas tal como se apresentavam e segundo o que faziam, o resto era poesia, superstição.

         Fosse como fosse os acontecimentos desenrolaram-se de uma forma imprevista. O caso da igreja morreu a topo e o tempo voltou a correr segundo os esquemas de séculos que as gerações transmitiam e os governantes esforçavam-se por conservar. A gravidade da controvérsia passou a ser fruto de recordações contadas entre velhos num misto de orgulho e de memórias.

         Correram dez, vinte anos. Nasceu uma outra geração. Por muito que se fechem as portas da história passa sempre uma corrente de ar. Os esquemas alteram-se embora, aparentemente, tudo se conserve segundo os hábitos e as tradições.

         O primeiro sintoma de um fenómeno novo que se iria processar em Serra Fria foi a partida do Zé da Bola para França. Afundara-se a vida em dificuldades que lançaram a família na miséria trepando-lhe o futuro para um caminho de esmolas. Perde-se um homem em desesperos de mendigo e de gente de vergonha e não sabendo já o que fazer mete a saudade no coroação e abala para as terras da fortuna onde se podem amanhar uns cobres para voltar honrado. Se assim rezavam os livros assim se cumpriu a trajectória do Zé.

          Este foi o primeiro golpe de uma sangria inestancável que todos os anos roubavam o melhor dos filhos de Serra Fria. De início sem significado de maior, veio a reflectir com o  correr do tempo  imprevistas consequências pois as guerras em África acabaram por aumentar o êxodo, mas agora da juventude. A aldeia começou a definhar, a perder o seu sangue, a morrer de solidão. No espaço de poucos anos restaram as mulheres, as crianças e alguns velhos. Até homens de cinquenta anos tinham-se aventurado fora da pátria na procura de fados que restituíssem alguma tranquilidade aos últimos anos de vida. O chão estiolou pela falta dos carinhos humanos que o tratasse como um deus reprodutor da natureza. O deserto instalou-se com a sua paisagem de solidão.

         Marrafa foi apanhado neste sorvedoiro quando pouco mais lhe restava do que a tragédia de ficar amarrado ao pelourinho do sacrifício. Sem meios que lhe permitissem pagar o valor a que as jornas haviam subido e sem forças para encetar novos processos de cultivo, era coagido pelas circunstâncias a encarar a hipótese de vender a fazenda. Para ele terra e árvores eram raízes e ramos do seu corpo. A fazenda contava a poesia da sua existência modesta moldada na luta pelas couves e no desespero daqueles que tudo davam e nada tinham. A fadiga de uma esperança adiada e que, até essa, ia estiolando aos poucos. Na casa dos sessenta, quando a terra representava o resultado de uma vida, custava-lhe  abandonar tudo a mãos alheias. Não era o valor nas o amor que amargurava a decisão e acicatava a resistência.

         A sorte, perdoe-se-me a contradição, é muitas vezes um jogo de azar e o Marrafa jogou-lhe forte. Um dia, apertado de todos os lados e acossado de todas as formas, viu-se coagido a desfazer-se da terra. Desnecessário será dizer que a vendeu mal, ou para ser mais preciso, vendeu-a numa altura em que a terra cada vez valia menos. Todavia, o velho deitou as contas: tinha sessenta e dois e as garra dos tempo na saúde; sentia-se a perder o seu lugar no terreiro da vida e se durasse mais dez anos os dinheiros fo negocio davam-lhe como reforma e haveriam de bastar para o caixão de um enterro sem padre.

         Nesta coisa de futurações é comum o homem pôr e Deus dispor. No caso do Marrafa desconfio que Deus esteve mesmo propenso a dispor de modo a estragar a vida ao homem. Não sendo o divino um espírito para reservas, certamente as preces do padre Januário pesaram na decisão final. Tal como o Senhor castigou o Egipto com as sete pragas do mesmo modo o fez com o Marrafa lançando-o sete vezes sobre o leito.

         Com a botica à cabeceira escapou à morte mas não escapou à miséria. Quando voltou a encarar o sol e a sentir no rosto o vento dos trigais estava uma sombra daquilo que fora. A doença afectara-lhe a lucidez e o desespero da penúria revoltara-lhe a alma dominada pelo tempo de rancor. Ficara meio bambo, isto é, apático, incapaz de reagir com a altivez a que a aldeia se habituara. Voltou à rua em farrapos, digamos, agora para os recados deste e daquele como prática piedosa pela sua desgraça. Aos poucos, porém, nem a esmola dos recados lhe era entregue. Marrafa tornara-se intratável, malcriado, bêbado, a rastejava entre pragas as bambices de velho.

         Cumpria-se a desejada vingança cristã do padre Januário sobre aquele pertinaz inimigo o do evangelho. Mas não de todo, porque para a alma santa deste representante da justiça divina faltava ainda cumprir um último acto, É precisamente quando a decrepitude do Marrafa atinge o máximo que Januário decide ganhar a batalha do tempo. Se nos drenos ao trabalho de meditar um pouco será fácil concluirmos que não poderia haver melhor oportunidade para lançar de novo a ideia da construção da igreja. em Serra Fria. E porquê? Marrafa já não podia oferecer qualquer resistência e embora esta fosse razão de peso outras haviam desenvolvido um clima favorável. As mulheres, afastadas dos seus homens pelos caminhos da imigração, tinham-se tornado mais dedicadas a Deus; as guerras em África desenvolviam a mística das preces e das dádivas; muitos dos que haviam partido a salto, só com a camisa e as calças agarradas ao corpo, desejavam agora dar sinais da sua presente abastança como forma de se afirmarem perante aqueles que tinham ficado.

         Todos os cálculos do padre Januário saíram certos. Afrouxadas as poucas resistências e manobrada a vaidade humana, foi fácil reunir os fundos suficientes para a construção da casa de Deus. Assim se previu e assim se fez. Mas o que verdadeiramente importa de tudo isto não é o facto da igreja se ter construído nas o insólito caso de o guarda da obra acabar por ser o pobre do Marrafa.

         O povo tem o hábito de dizer que Deus escreve direito por linhas tortas, ditado que, no caso vertente, servia ao padre mas não servia ao povo, pois foi o próprio padre, irmão em Cristo mas vingativo como o raio que o partisse,  que fez a rábula do perdão e ofereceu o lugar ao desgraçado rival.

         Marrafa aceitou sem surpresa para ninguém ou não fosse uma alma prisioneira do infortúnio. Sabiam-no falho de lucidez para poder tirar medida à sua humilhação.

         Como preito de justiça à memória do nosso personagem é indispensável que se diga ter ele morrido antes do primeiro repicar dos sinos no campanário chamando os fiéis ao culto. Como última e derradeira forma de esconjurar o demónio do corpo do Marrafa o padre quis dar-lhe um enterro religioso mas aqui, neste caso particular, o povo opôs-se e exigiu que o seu corpo fosse deitado à terra livre de bênçãos, pois o verdadeiro destino de cada um a cada um pertence, mesmo na morte.

 

 

 

Póvoa das Quartas

 

Setembro 1973

 

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