CONTOS & CRÓNICAS – “Porto – Antiga, mui Nobre, sempre Leal e Invicta…” – por Carla Romualdo

Um rio, a margem aprazível desse rio, um povoado de origem incerta, que haverá de dar lugar ao Portus Cale. Um burgo erguido sobre o agreste morro da Pena Ventosa, açoitado por um vento gélido e abençoado com uma vista deslumbrante. Estenderá as suas ruas até ao rio, tortuosas e labirínticas, plenas de vida e ruído.

Até ao final da Idade Média, o Porto haverá de assumir as características que ainda hoje associamos às suas gentes. Palco de contendas entre o clero, a nobreza e a burguesia, entre as suas muralhas haverá de impor-se a regra de permanência máxima de três dias a qualquer nobre que nela queira pernoitar.

O Porto apoiará incondicionalmente o Mestre de Avis na crise de 1383-1385 e será o berço do infante D. Henrique. Aos apelos patrióticos de apoio à armada de partida para a conquista de Ceuta responderá entregando a totalidade da carne disponível e ficando para si com as tripas, episódio que qualquer portuense vos contará com desenvoltura, jurando, “por esta luz que me alumia”, que foi assim, sem tirar nem pôr, e desprezando qualquer tentativa historiográfica de corrigir esta versão. Tripeiros somos, pois claro, e nesse epíteto resume-se um passado de generosidade e valentia.

A cidade medieval conhecerá um novo rosto com a intervenção dos Almadas, os grandes urbanistas da cidade, e terá na Torre dos Clérigos, de Nasoni, o seu mais luminoso farol.

Devastada pelas invasões napoleónicas, perderá centenas dos seus cidadãos na terrível tragédia da Ponte das Barcas (de que o nosso colaborador Luís Rocha falará hoje aqui).

Defensora dos ideais do liberalismo, suportará um terrível cerco de dois anos, que deixará a cidade destroçada. O Cerco do Porto (1832-34) valerá à cidade o título, ainda hoje ostentado com orgulho, de Invicta Cidade do Porto, e a homenagem de D. Pedro IV, cujo coração repousa na igreja da Lapa.

O Porto será a primeira cidade a eleger um deputado republicano, José Joaquim Rodrigues de Freitas, e nela eclodirá a Revolta de 31 de Janeiro de 1891, primeira tentativa de implantação de um regime republicano em Portugal

Será palco, a 15 de Maio de 1958, em plena vigência do Estado Novo, de uma extraordinária recepção ao general Humberto Delgado, com a presença de cerca de 200 mil pessoas.

As décadas seguintes têm sido marcadas pelo reconhecimento de um Património cultural único (que a UNESCO consagrou em 1996), pela modernização da cidade e da sua área metropolitana, e por uma crescente visibilidade do Porto na Europa e no mundo (nomeadamente em 2001, ano em que o Porto foi Capital Europeia da Cultura).

Mas esta é também ainda a cidade das “ilhas”, onde dezenas de pessoas partilham um núcleo habitacional sem condições mínimas, desprovido de saneamento básico, com uma única casa de banho para todos os moradores. Esta é a cidade dos bairros sociais como o Cerco do Porto ou o Aleixo, verdadeiros guetos onde vivem cerca de 20% dos habitantes do Porto e que têm sido devastados pelo consumo de drogas, pelo alcoolismo, pelo desemprego e a desagregação do tecido familiar. Nos últimos anos, os indicadores revelam que a pobreza no Porto ultrapassa a média nacional e que é neste distrito que se concentra o maior número de beneficiários do Rendimento Mínimo de Inserção.

Esses dois rostos da cidade – o do cosmopolitismo e o da miséria – convivem diariamente, cruzam-se nas ruas do burgo, e são hoje o retrato do Porto, este Porto que nos exalta e nos comove, mas também nos envergonha e nos faz caminhar pelas ruas de má consciência, perante a miséria envergonhada da nossa gente e a ruína das casas, órfãs de quem as amava.

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