CONTOS & CRÓNICAS – “A casa da flor amarela” – por Catarina Pereira

contos2

Foi como um raio. Estranho não ter se lembrado antes. Talvez o cheiro da torrada queimada. Claro. Tinha havido um homem. No mínimo, a maneira mais fácil de explicar os três filhos.

Trocou de roupa com a rapidez permitida pelos oitenta e tantos anos. Precisava sair antes de Amélia? Célia? voltar do quintal. Fosse quem fosse, detestava andar atrelada ao braço gordo da mulher. Idéia besta dos filhos que, de uns tempos pra cá, decidiram botar dentro da casa dela uma desconhecida, chata, grudada dia e noite, sem nada melhor para fazer.

Estava velha sim, mas não imprestável. Podia perfeitamente andar sozinha e preparar a própria comida. Ou comer na pensão, ao lado. E Célia? Amélia? ainda por cima, roubava. Senão, como explicar o sumiço de todos os maços de cigarros que comprava? Devia fumar escondida, a antipatia.

Mas, e o homem? Saiu, deixando o leite derramado no fogão, a torrada meio pulverizada na pia e a porta aberta. Olhou para todos os lados. Se a mulher aparecesse, correria para atrás de uma árvore.

Ao virar a primeira esquina, se acalmou. Estava livre. Teve que parar várias vezes para explicar às pessoas onde estava Amélia? Célia?. Cidade pequena tem disso. “Em casa. Com uma gripe de dar pena. Vou só comprar remédio.”

Caminhou devagar, mas decidida, por ruas cada vez mais desertas, até a periferia. Sentiu sua presença em cada canto, chegou a procurá-lo nos jardins, quem sabe atrás dos arbustos carregados de hortênsias? Mas ele estava morto. Morto há tanto tempo que havia deixado de ser tristeza, saudade, lembrança.

E os filhos? Por que nunca falavam no pai?

Perguntaria a todos no domingo, quando viessem visitá-la. Edson, Edgar, Edna. Se fosse hoje, colocaria neles nomes diferentes. Desde pequenos era difícil chamá-los; quase dava nó na língua. Agora, confundia os nomes. E a comida, então. Sabia que um gostava de bolinhos de chuva, outro, de pão de queijo, e outro, de bolo de fubá. Mas quem gostava do quê? No fim era sempre uma tremenda confusão, todos riam dela e ela continuava sem saber. Custava terem o mesmo gosto?

E o pai? Por que nunca falavam no pai?

Entrou na viela de chão batido margeada por cinamomos enormes, os galhos folhosos entrelaçados. Um caramanchão natural escurecendo o  caminho. No fim dele, como uma visão, o sol do meio da tarde castigava o portão de ferro semi-aberto, de um azul pálido e craquelado pelo tempo.

Sentou-se na beira do banco de cimento colado ao muro. Com as mãos em concha, massageou os joelhos, esticou as pernas e as costas e virou o rosto para o sol. Ficou quieta até sentir o rosto quente e a respiração se acalmar.

Era um homem bonito. Agora, quase podia vê-lo. Alto, esguio, moreno, o bigodinho fino bem aparado e os olhos. Os olhos cor de ardósia que a faziam estremecer cada vez que ficava nua diante deles. Sentiu um arrepio correr pelo corpo. Mas, o nome. O nome escorregava, escapulia da cabeça. Via as letras isoladas mas não conseguia juntá-las num nome familiar.

Mesmo assim, entrou. Lembraria ao vê-lo escrito, na placa. Devia haver uma placa.

Andou por aléias largas, passou por santos, anjos e casas de mármore tão grandes, que se poderia morar dentro. Chegou ao fundo, na área dos túmulos mais modestos. Então o viu. Não havia foto nem placa, mas as letras, em metal dourado com pontos de ferrugem, incrustadas na lápide branca, não deixavam dúvida:

Edilson Barbosa 1918-1973

Muito, muito tempo. E ela não se lembrava de ter estado ali uma única vez. Mas tinha certeza de ter amado aquele homem, e abandonar seu túmulo era algo inexplicável, um misterioso nada. Pensou que talvez devesse chorar, mas os olhos continuaram secos.

Devagar, se ajoelhou na terra e recitou baixinho a única oração que conhecia. Sem atinar com mais nada que a pudesse manter ali, começou a arrancar, cuidadosamente, raiz por raiz, o mato crescido em volta do túmulo. Nem era feio. Folhas compridas com uma flor amarela, grande, no meio. Mas era mato. Um pouco depois, percebeu a manchinha escura andando numa das flores.

Chegou mais perto. Uma joaninha. Cascudinha, vermelha com bolinhas pretas. Tentou pegá-la mas ela voou para longe. Voltou ao trabalho.

Antes que pudesse terminar de arrancar a planta seguinte, parou, piscou os olhos, fixou-os nas pétalas da flor, releu o nome na pedra.

Filho-da-puta. Morreu na cama de outra mulher enquanto ela se acabava na máquina de costura.

A Casa da Flor Amarela.

A prostituta pensando que ele gemia de prazer e o sem-vergonha tendo um enfarte.

Fulminante. Os amigos carregaram o corpo para o bar próximo, antes de chamá-la. A mulher, histérica, teve que ser contida pelas colegas.

Tudo isso ela ouviu depois, num matraquear sussurrado correndo meses a fio pela cidade.

A casa não resistiu ao escândalo e fechou. Os filhos foram proibidos de falar o nome do pai, e ela prometeu a si mesma nunca mais chegar perto dele.

Olhou para o monte de plantas já arrancadas. Replantou-as, uma a uma, com o mesmo cuidado com que as desenraizara.

Sentou-se no banco que circundava a figueira no meio da praça, o já sol se avermelhando por trás dos morros. Antes que se recuperasse da Exaustão e das dores nas costas, viu Célia?

Amélia? sair da farmácia e correr em sua direção abanando os braços como se fosse levantar vôo.

Só podia estar doida. A mulher sentou-se ao lado dela esbaforida, fazendo perguntas completamente sem sentido. Nem se deu ao trabalho de responder. Minutos depois, levantou-se e aceitou apoiar-se no braço gordo. Caminharam devagar até a casa, do outro lado da praça.

A chata levou-a direto para o banheiro e, depois de limpar-lhe os joelhos, colocou suas mãos sob a torneira da pia e passou a lavar cada um dos dedos, sujos de terra. Ela observou por algum tempo a lama descendo em turbilhão pelo ralo. Levantou os olhos e viu, no espelho, o rosto amassado, os cabelos muito brancos e finos precisando de um pente. Sorriu do desali-nho e viu as rugas se multiplicarem. Uma velhinha velhíssima. Em algum momento, não muito distante agora, seria enterrada naquele mesmo túmulo. Exigir dos filhos um túmulo separado era besteira.

E mais despesa desnecessária.

Teria que passar a eternidade ao lado daquele traidor safado.

Irritada com tanta demora, terminou de limpar ela mesma os dedos, enxugou as mãos, penteou os cabelos, acelerou o passo até a cozinha. Havia comido uma miséria no almoço, estava morrendo de fome e detestava gente lerda.

Sentada à mesa, esperando pelo café, acompanhava com os olhos os movimentos da mulher e a viu, num gesto rápido, recolher, de cima da pia, os restos esfarelados e enegrecidos da torrada.

Célia?, Amélia? colocou na frente dela a caneca de café com leite. Disse alguma coisa que ela não ouviu.

Depois de tomar o primeiro gole, quente e forte de-mais como sempre, fixou os olhos na lata de lixo.

“Mocinha, quando é que meus filhos chegam?”

Não esperou pela resposta e anotou, mentalmente: “preciso avisar às crianças. Quando eu morrer, quero ser cremada”.

Leave a Reply