FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

Quando a incompetência ou a maldade são consideradas qualidades e como tal, premiadas – IIª Parte – E

Ainda a propósito das recentes promoções de Vítor Gaspar, Álvaro Santos Pereira e José Luís Arnaut

(CONTINUAÇÃO)

gregos - XLVIII gregos - XLIX gregos - L 

Com os valores observados em cima, o efeito expansionista da política governamental só seria benéfico se e só se o rácio inicial da dívida fosse superior a 70%, o que, diga-se de passagem, acontece em todos os países da zona euro em dificuldade.

Refaçamos os dados e admitamos agora que temos um multiplicador negativo. Para isso ser possível será então necessário que o denominador do multiplicador seja negativo. Como? Considerar um quadro em que 1-c*+m <0, ou seja, que 1+m <c*, o que nenhum economista, mesmo louco pela política de austeridade se aventuraria a admitir. Nesta hipótese louca, o multiplicador viria então negativo, mas nada disto teria sentido, pela simples razão de que não se pode consumir, nunca, mais do que o que se produz e se importa.

Retomemos a expressão anterior, com os parâmetros c*=0,6 e m=0,6. Para que o efeito da política expansionista seja benéfico relativamente à divida, ou seja, para que faça baixar o rácio da dívida relativamente ao PIB é agora necessário que a expressão (A) seja positiva. Com os valores indicados é necessário que o rácio inicial da dívida seja igual ou superior a 90%, que é, por acaso, a situação dos países ditos periféricos.

Mas face à impossibilidade de encontrar um multiplicador negativo pelas razões apontadas e no quadro das hipóteses consideradas os nossos “pensadores” ao serviço de Bruxelas trataram de encher o modelo com hipóteses fantasiosas que poderiam levar, ou a que este multiplicador seja negativo ou, mais tarde, a que este fosse menor que 1.

Considerava-se que um processo de consolidação orçamental viesse a estimular o crescimento económico por três vias possíveis. Em primeiro lugar, o aumento do consumo poderia ocorrer devido à melhoria de expectativas dos agentes económicos face às políticas de austeridade aplicáveis (!) face também às expectativas de impostos mais baixos no futuro, começavam já a consumir mais (!) e até pelas expectativas também de maiores rendimentos futuros poder-se-iam endividar mais para consumir mais. Por estas vias poder-se-ia mais do que ultrapassar o efeito negativo da política orçamental e entrar-se-ia assim numa trajectória de crescimento. Para ajudar a esta festa do consumo e do investimento em ambiente de contracção, também se consideram as expectativas de que as taxas de juro caiam, até pela baixa da pressão exercida até aí pela procura de fundos feitos pelo Estado no mercado de capitais. Por esta via, esperava-se também um aumento do investimento e de novo um aumento de rendimento. E por ironia a auto-estrada para o crescimento fica assim cada vez mais larga, prometendo simultaneamente riqueza para os cidadãos à medida que estes fiquem momentaneamente mais pobres. Viva a austeridade (!) terão gritado Olivier Blanchard e Christine Lagarde, em Riga, na Letónia, um país arrasado pelas políticas de austeridade, estando-se rapidamente a transformar num novo Chipre. Mas neste mundo dos neoliberais há ainda mais um bónus caído do céu: a descida dos prémios de risco. As políticas seguidas, porque assentes na austeridade, tornam-se mais credíveis para os mercados e estes fazem baixar os spreads de risco, assim como os não menos famosos CDS´s que lhes estão associados. Conduzem à queda do “preço”do capital! Abre-se pois, permitam-me a ironia, mais uma pista na auto-estrada que nos leva ao crescimento e à riqueza. E finalmente, acrescenta-se uma pista mais, e agora mais larga. As reformas estruturais sobre o mercado de trabalho. Este aumentou de eficiência conduziu à melhoria da competitividade e tanto mais quanto a contracção do sector público se espera levar à redução dos salários no sector privado. Este foi o discurso da Troika, foi o discurso de Passos Coelho em Luanda, espelho do ciclo que se segue, com a descida dos salários no sector privado → aumentariam os lucros → aumentaria o investimento → aumentaria a concorrência e aumentaria, logicamente, a inovação técnica. Estes eram pois todos ou, quase todos, os efeitos “benéficos” que seriam esperados por se provocar uma situação deprimente no sector público, conduzindo então ao resultado esperado, a queda dos salários do privado[1]. Adicionalmente, tudo isto conduziria a uma descida dos preços dos bens exportáveis e a uma subida relativamente os preços dos bens importáveis, o que aumentaria a concorrência no espaço internacional e substituíam-se importações por bens nacionais, pela via da alteração dos preços relativos, abrindo-se mais uma via na auto-estrada em direcção ao crescimento. Não obstante os neoliberais asseguram-nos no alto das suas cátedras e dos seus manuais que esta auto-estrada é de sentido único, em direcção ao crescimento mas, se olharmos para qualquer Press Release de Eurostat, como o faremos no final desta peça, confirmamos que esta dita auto-estrada a caminho do crescimento é de sentido único, sem dúvida, mas, circula-se a grande velocidade e em contramão, ou seja, em sentido contrário ao indicado por eles, a caminho duma recessão sem fim e talvez mesmo sem saída no quadro das políticas até agora concebidas.

(continua)

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[1] Devemos excluir da nossa crítica o trabalho sério, embora dentro do modelo neoliberal, feito por Jan in ‘t Veld e já publicado no blog A viagem dos Argonautas. Neste contexto e dado o direito a termos dúvidas, nem que seja pela nossa idade, onde já ganhámos o direito a esquecer muito do que outrora aprendemos, escrevemos ao autor citado expondo-lhe as nossas dificuldades quanto à  leitura dos modelos utilizados. Em anexo, transcrevemos a nossa carta e a sua resposta.

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Para ler a parte II – D deste trabalho de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

2 Comments

  1. O que falha é o entendimento, Grassa a mediocridade, amputa-se a ética. A retórica e a dialética assumem o papel de argumento incontestável da benignidade do paradigma, que aliás confundem com pragmatismo – são possidónios e malvados e porque, falhos de entendimento, não compreendem que transportam em si mesmos a semente da falência do paradigma que adoptam.
    Nada será como dantes. Estamos todos a acordar do estupor em que caímos há muitos séculos.
    Alguns de nós começamos a perguntar PORQUÊ em vez de COMO… É uma grande mudança…

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