Parte I
Tenho acompanhado os debates feitos à volta deste tema. Fui professor universitário cerca de 40 anos, pedi a passagem à reforma bem antes de concluir o meu contrato de trabalho na qualidade de professor auxiliar convidado, por razões que na altura bem expliquei. Como referi, assisto aos debates sobre acontecimentos e práticas de que não me espanto, excepto quanto ao que aconteceu na praia do Meco, mas sobre isso não falemos. O documentário sobre as praxes, repetidas vezes passado, mostra ao povo português afinal o tipo de juventude que estamos a criar e de que todos nós temos quota parte de responsabilidade: porque os educamos, porque fazemos as universidades com as suas estruturas ou com a falta delas, porque aceitamos silenciosamente o “jogo” que estas jogam na lógica do “jogo” que o ministro lhes exige: fabricar diplomas que atestem a passagem pela Universidade e simultaneamente aliviar ao máximo o orçamento público, ou seja, o défice. A qualidade do ensino, essa (?) é aqui irrelevante. A sociedade encarrega-se do resto, ou seja, de desvalorizar brutalmente estes mesmos diplomas..
Em tempos de protesto escrevi a um surdo e mudo, o actual Presidente da República, apelando à sua intervenção sobre a destruição a que se estavam a sujeitar as Universidades, escrevendo mais ou menos com o seguinte.
Senhor Presidente, neste tsunami silencioso que vem de longe, de muito longe, como diz o poeta/cantor, nesse tsunami silencioso inscreve-se a reforma de Bolonha do ensino superior, em que com ela, e na minha opinião, a Universidade está lenta mas implacavelmente a ser destruída. Com esta reforma, passámos a considerar as Universidades como o espaço onde não se pode ensinar pouco mais que generalidades e não creio honestamente, por maior que seja o esforço, que neste momento se possa passar para além disso. Onde deixa de haver capacidade de pensar, não pode haver, logicamente, capacidade de se ensinar. Com esta reforma, aí temos a Universidade a transformar-se num deserto de ideias, onde o acto de pensar, reflectir, criticar, argumentar, reconstruir, parece arredado na formação universitária dos jovens; se assim é, ensinar, no verdadeiro sentido da palavra, é agora apenas uma possibilidade virtual. O que desta reforma nos fica é a certeza de que se quer que o ensino represente menos despesas públicas no orçamento do Estado, sacrificando-se com isso a nossa juventude, os nossos filhos e os nossos netos, no altar da redução do défice público. É assim uma luta contra o tempo, é a luta pela compressão do estudo ao tempo mínimo e ao custo mínimo, como se tenha mais valor ter um jovem deficientemente formado e, na rua à procura de emprego do que um jovem de profundos conhecimentos capacitado na mesma situação, pois o primeiro representa um menor desperdício financeiro. Com a reforma de Bolonha, permitiu-se que se generalizasse uma forma de “ensino” mais leve para quem ensina e tem muitas outras ocupações mais rentáveis, mais leve para quem não quer entender que um professor tem a difícil função de apoiar os estudantes na descoberta do mundo que lhes é dado, do mundo que lhes cabe a eles refazer, tem a difícil função de os apoiar a ganharem novas formas de estar e de enfrentar o mundo hostil que lhes estamos a criar, tem a difícil função de estar intelectualmente disponível para os ajudar a que cresçam num profundo espaço de cidadania, a Universidade que desejamos, como cidadãos e como técnicos. E a isto chama-se claramente inserção do estudante. Em suma, apoiá-los no seu desejo de transformar o mundo de modo a que a vida lhes confira sentido e, com este, sejam eles a conferir sentido ao mundo que conscientemente desorganizámos! Em vez disto, o que está a ser feito, no reino da facilidade com o processo de Bolonha já instalado, é tornar a vida muito mais leve para aqueles que não ensinamos e, não ensinamos agora nem a ler ou a escrever bem nem, muito menos, a estudar bem. Isto é enganá-los, é dar-lhes uma forma de estar na vida pessoal e profissional que esta não comporta. Fornecedora de diplomas de não empregabilidade é o que a Universidade se apresta agora a ser, com o nível de licenciatura, o primeiro ciclo, que fornece.
A revolução francesa deu-nos uma trilogia: liberdade, fraternidade e igualdade, só conjugáveis duas a duas, o neoliberalismo deu-nos a dualidade, “to be or not to be, to have or not to have”, e Bolonha, uma reforma organizada no interior do modelo neoliberal, na sua expressão mais forte e mais dura, aplicada à Universidade, leva-nos a uma outra trilogia: “to be or not to be, to know or not to know” e então. Mas aqui já não se conjugam duas a duas! Vou porém mais longe, quanto ao “to know or no to know”. Se a dualidade existe, se se verifica esta oposição binária, então garantidamente esta deve-se mais à formação de origem dos nossos alunos do que à qualidade de ensino que as estruturas de Bolonha levaram a ser ensinado, porque com estas estruturas nem elites capazes são possíveis de ser formadas no reino da facilidade agora instalado. Por exemplo, acreditando no jornal, O Público, este informava que uma parcela significativa dos estudantes do IST não faz operações algébricas simples, e nas outras Faculdades os esperados muitos alunos de elite ninguém os vê. Em lado nenhum do mundo as elites podem ser criadas assim e não será agora aqui, com certeza, que se iria operar o milagre. Não o creio. Mas então a pergunta: para que serve esta Universidade? Assim, como a vejo, só um sentido lhe retiro e, um muito mau sentido: o de fazer a diferenciação no elevador social pelos diplomas, e a diferenciação nestes pelo dinheiro que se possa ter à partida, ou seja, à nascença. Da licenciatura ao mestrado do mestrado ao doutoramento serão anos a mais e muito mais dinheiro a gastar para exibir esse ticket de modo a poder subir uns andares a mais no referido elevador social que aliás tem sólidas provas dadas que desde há muito estar avariado. Se isto é assim, o que reflecte esta situação? Ou, por outras palavras, o silêncio sobre a sua existência o que representa? A comodidade do nosso silêncio talvez, mas esta deve ser transformada na incomodidade das nossas recusas.
Senhor Presidente, nesse sentido lhe deixo aqui, o texto de uma exposição feita em Lisboa sobre a reforma Bolonha, lhe deixo aqui a expressão das minhas angústias quanto ao futuro da Universidade em Portugal. Ironia da história, senhor Presidente, fui seu aluno e nessa época seu crítico fui, na qualidade de estudante, como o foram também Ferro Rodrigues, Augusto Mateus, Carlos Pimenta, Félix Ribeiro, Francisco Soares e tantos outros, com quem se partilhou outras perspectivas de Universidade que a de então mas também necessariamente muito diferentes daquelas com que nos deparamos actualmente. E hoje, de igual modo seu crítico sou, senhor Presidente, por não partilhar da mesma visão do mundo, mas é ao nosso Presidente que agora me dirijo, a si portanto, que venho com esta carta apelar para que se questione seriamente o que é a Universidade de hoje, o que queremos como Universidade de amanhã e, sobretudo, que nos preocupemos seriamente com a nossa juventude. Hoje, em democracia, dirijo-me a si, senhor Presidente, fazendo o protesto que me é eticamente exigível, mas agora necessariamente aberto a todas as formas de divulgação que são próprias de quem resiste em nome da cidadania e do desejo de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais ambiciosa nos seus projectos, faço-o, porque confio também agora no sistema, confio na Democracia que representa, confio na dignidade do cargo que ocupa e faço-o num momento em que sinto que as Instituições Governamentais estão a ficar de costas voltadas para as grandes missões de interesse público. E nestas está necessariamente, a imposição de não deixarmos que se deixe destruir a juventude de hoje, está a obrigação de tudo fazermos para que esta não se transforme irrecuperavelmente numa lost generation.
Senhor Presidente, parafraseando Thomas Piketty no artigo citado, considero que é urgente que os dirigentes portugueses, assim como todos os dirigentes europeus e todas as Instituições da União Europeia, tenham finalmente a coragem de ter uma visão nacional e europeia solidária e ambiciosa para se sair da crise actual e esta não é só financeira como nos querem fazer crer, esta atinge tudo o que é socialmente significativo na sociedade portuguesa. Comecemos nós por compreender a necessidade da existência dessa coragem.
Consciente de que é necessário perceber a dimensão do desastre que se está a criar e também a dimensão do mal-estar que a muitos docentes está a condicionar, espero, senhor Presidente, que este meu apelo seja entendido e com esta esperança lhe peço que aceite os meus respeitosos cumprimentos.
Foi assim o texto escrito ao Presidente de todos nós. Sobre a recepção nem uma linha. Naturalmente assim, pois de um Palácio democraticamente vazio não poderia vir nenhum sinal e os fantasmas na Democracia não têm nada a ver com ela, com as vivências que enquanto sistema esta inspira, esta alimenta.
Durante os últimos dez anos assisti a uma forte erosão do que era movimento de estudantes e a partir daí e por consequência automática, assisti à perda de capacidade integradora que o movimento estudantil tinha sobre todos aqueles que chegavam à Universidade. Delegados de turma, comissões de curso, conselhos pedagógicos, secções de textos, debates sobre a política das Escolas, tudo isso desaparecia na voragem de uma sociedade que se estruturava de uma forma neoliberal. Lembro-me ainda de uma altura em que era Presidente do Conselho Pedagógico. Protestei quanto às práticas “da noite dos horários”, creio mesmo que consegui que naquele ano não houvesse noite dos horários. Depois, no período seguinte, perdi no Conselho Pedagógico, os estudantes queriam a sua noite, a noite em que se vingavam do que a eles lhes tinham feito e o Conselho aprovou.“ Mas oh, professor, não se rale, é só pura brincadeira”, dizia-me o estudante Pedro M., na altura aluno do 5º ano e pertencente ao Conselho. Anos depois, a noite dos horários deixou de ter fim e para que nem o frio incomodasse os estudantes facultou-se-lhes um bar aberto a noite inteira para com a bebida se poderem distrair. Conclusão, a festa podia, pois continuar.
Lembro-me ainda do último jantar de finalistas em que participei, “que tristeza”, meia dúzia de professores e pouco mais de uma dúzia de estudantes, num restaurante chamado a Lanterna, para fechar e comemorar o fim de um ciclo de vida. Senti-me como num velório, não de um alguém, mas de um movimento, de uma certa concepção de Universidade. Foi o último jantar de fim-de-curso em que participei e não tenho ideia de ter havido mais algum. E isto passava-se antes da crise, bem antes. Pessoalmente costumava dizer que um estudante pode chegar à Universidade calado e sair mudo, tal era a falta de meios de comunicação existente entre os estudantes. Integrados agora, sabemo-lo todos pelas “brincadeiras” da praxe ou pelo álcool que corre a jorros, mas isto não é Universidade, lamento dizê-lo, antes pelo contrário, é fazer dela uma espécie de jardim infantil para (…) “adultos”. E para agravar a situação estes deixaram de saber brincar! Creio que trata-se de um sistema que entretanto foi sendo criado e financeiramente para preencher o vazio da própria sociedade.

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