O QUADRO – por Fernando Correia da Silva

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              Voltemos à tia Patricinha: é uma velha solteirona, beata, chata e coxa. Eu tinha uns treze anos quando morreu a minha querida avó materna. A tia Patricinha pediu, como lembrança, a imagem do Coração de Cristo que estava no quarto da sua irmã. O meu pai concordou e disse-me para eu proteger o vidro com papelão e embrulhar e despachar o quadro para a morada da Tia Patricinha, em Vila Franca de Xira. Assim fiz. Mas antes, como eu não gramava a velha, recortei e colei no canto superior direito do quadro (mas sobre o vidro) uma apetitosa de bikini. Fiquei à espera que houvesse bronca mas a velha fechou-se em copas. Só meses depois, quando toda a família se agrupou para festejar o aniversário da minha mãe, é que ela me apontou o dedo e rosnou:

            – Sabem o que fez este malandro? Junto com a imagem do Sagrado Coração de Jesus mandou uma mulher nua.

             Do fundo da sala, o meu pai avançou de mão levantada.  E eu, que já estava condenado, dei mais um passo em frente, quem morre por cem, morra por mil:

            – Ó minha Tia, olhe que essa mulher, ao sair de Lisboa, levava calcinhas e soutien. Se ela chegou nua a Vila Franca, é porque alguém a despiu pelo caminho…

            Noel, um primo da minha mãe, interpôs-se entre mim e o meu pai. Deu-me duas palmadinhas nas costas e disse, à gargalhada: 

            – Essa é boa, é muito boa, alguém a despiu, alguém a despiu…

            Os familiares largaram-se todos a rir e até o meu pai baixou a mão. Furiosa, a Tia Patricinha saiu da sala para o corredor e, a martelar com a bengala no chão, foi grasnando:

            – Esta é uma casa de deboche, de deboche, de deboche…

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