PARA QUE SERVEM OS AVÓS? INTERROGA-SE PEDRO STRECHT por Clara Castilho

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Pedro Strecht é médico de psiquiatria da infância e adolescência. Exerce actividade privada, colabora com a Cooperativa A Torre e éImagem2 Presidente da Direcção do Centro Dr. João dos Santos-Casa da Praia, onde também supervisiona o trabalho com as crianças. Tenho o gosto de todas as semanas com ele trabalhar e de apreciar a sua sensibilidade e saber.  Coordenou o Projetco de Apoio à Família e à Criança Maltratada (Lisboa), a Equipa de Intervenção Psicossocial do Casal Ventoso, e a Equipa de Intervenção em Crise da Casa Pia de Lisboa. Foi professor do ensino secundário e superior, na Universidade Católica de Lisboa.   Da sua colaboração na imprensa, destaque para a coluna que manteve na revista Pais & Filhos e no jornal Público. É autor de mais de duas dezenas de livros sobre temas respeitantes à sua área profissional e da literatura infanto-juvenil.

Este livro, editado pela Verso de Kapa em 2013, coloca diversas questões através de uma avó que regista em diários as suas reflexões sobre as relações com os netos.

Os assuntos são variados mas deixo alguns pedaços que poderão dar uma ideia de todo o conjunto.

Logo no início temos uma frase retirado da carta de uma avó a propósito de um neto seguido em consulta: “Não sei bem o que é melhor para os meus netos perante os desafios dos dias de hoje. Mas sei, com toda a certeza, que precisam muito de mim”.

Uma das suas filhas responde-lhe a questões que ela, avó coloca:“A Mãe não entende que ele não rende? O colégio é caríssimo, as explicações levam-nos rios de dinheiro e ele não passa do nível três? A mãe acha que o esforço não vale a pena?”

E a avó  questiona-se:“Que crianças são ou virão a ser aquelas a quem ninguém deixa em sossego, vítimas discretas e sem defesa do pânico ao ócio como sinónimo de simplesmente deixar a vida entrar, mesmo quando esta não nos bate à porta, e, com ela, existir… vivendo”

E continua: “Quantas vezes repito aos meus netos a frase “não tem mal” ou a palavra “espera”? “Já, agora, imediatamente, a mil” é o que lhes ouço dizer vezes sem conta e, como seria de esperar, não há capacidade emocional que lhes acompanhe o corpo, que anda, mexe e se agita velozmente sem cessar”.

Reage contra uma ideia muito presente na actualidade: “Agora o que conta é “ter imagem” como dizia o meu neto de 11 anos, é o objecto, nunca o sujeito, o que causa impacto pelo que se mostra exteriormente e não pelo que vale o conteúdo. As pessoas são ensinadas a inconscientemente esvaziarem-se de si próprias”.

O relato de um diálogo a propósito de medos faz-nos sorrir e pensar noutras situações que já vivemos:

“ Ó avó no seu tempo de criança também tinha medo?”

“Sim, claro, expliquei “lembro-me de um muito habitual…”

“Qual?, quis saber  num movimento rápido de curiosidade.

“Medo dos lobos”, respondi-lhe tranquilamente.

Ele riu-se trocista e muito seguro afirmou:

“Ó avó é mesmo avó. Então não sabe que os lobos não existem nas cidades e mesmo que existissem eram logo derrotados pelos raios laser?”

É nesta conjugação entre o real e a fantasia, o passado e o presente, a tradição e a inovação, o desejado e o possível, o amor e o ódio, a junção e a ruptura, que se constrói a individualidade de cada um e a possibilidade de ser feliz.

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