Para dizer a verdade nem sei se será má a tendência que temos para confundir as coisas: passado com presente, distância com ausência, Alfama com Mouraria, porta com janela, água com vinho, aguardente com batatas com bacalhau, partir com ficar, ir com vir, segurar com aventar.
O melhor mesmo é ficar por aqui. Porque se já há quem considere disparate a confusão das coisas por pessoas que se pensam lúcidas, o que dizer deste arrazoado de descrições de contradições sem qualquer nexo, nem preocupação por aquilo que seria do mais elementar sentido de arrumação, já para não dizer ordenação por assuntos.
Meter no mesmo saco a confusão entre distância e ausência e aguardente com bacalhau com batatas, pode mesmo ser tido como uma elevada falta de consideração pelos que tentam pôr ordem nas coisas. Isto é, agrupar as palavras por aquilo que querem dizer.
Mas vendo por outro prisma. Talvez quem leia dê o desconto a esta baralhada, porque o título geral do que escrevo é, escritos na areia. Bom, isso revela que não se tem grandes expetativas de que o que se escreve tenha reflexos em quem o lê.
Mas e há sempre um mas, o título completo é “escritos na areia … ou talvez não”, e isso já revela alguma esperança, que vai no sentido contrário do que tinha acabado de dizer antes.
Nesse caso se por ínfima hipótese alguém um dia tentasse fazer uma apreciação cuidada a este texto, quem sabe se não iria concluir que o autor tinha na sua posse as peças, mas não estabeleceu um modo de as dispor e moveu-as no tabuleiro, sem ordem!
Pior do que a confusão descrita é quando se confunde o mapa com o território. Visto assim, tudo parece ter uma certa semelhança, a mesma letra, as pequenas diferenças de espaço entre as diferentes terras e ali está um país onde não se notam contradições.
Mas ainda que com contradições é natural que qualquer “iminência parda”, por exemplo com a paixão pelas corridas, (para não falar de política) sejam elas a pé, de bicicleta ou de automóvel, quando está a definir uma estratégia, pousar o dedo num mapa e dizer, atravessamos aqui. O pior é quando o que confundiu aguardente com batatas com bacalhau, num ato de lucidez lhe diz: Infelizmente o seu dedo não é nenhuma ponte!
Podia continuar com a ponte para outra margem, aproveitava e modificava o que escrevi, mas já que está!