SOBRE A UCRÂNIA, SOBRE PERGUNTAS QUE NÃO FAZEMOS, SOBRE RESPOSTAS DE QUE PRECISAMOS – a partir de MAX FISHER E WASHINGTON POST FOREIGN STAFF e de LEONID PEISAKHIN

Selecção, organização  e tradução por Júlio Marques Mota

UM TRABALHO FEITO ESPECIALMENTE A PARTIR DO TEXTO  DE MAX FISCHER, 9 QUESTIONS ABOUT UKRAINE YOU WERE TOO EMBARRASSED TO ASK, E DO TRABALHO DE LEONID PEISAKHIN,  WHY ARE PEOPLE PROTESTING IN UKRAINE? PROVIDING HISTORICAL CONTEXT, AMBOS PUBLICADOS NO WASHINGTON POST
PARTE IV
(CONCLUSÃO)

6. Então sei que a Rússia mandava na Ucrânia, mas nada mais sabia. Porque é que ouço tanta gente a falar do seu papel em tudo isto?

O presidente russo Vladimir Putin tem sido altamente agressivo em forçar a Ucrânia a rejeitar a União Europeia e, ele espera, que em vez disso ela se junte a União Aduaneira entre Moscovo e EuroÁsia , que é constituída por alguns outros antigos Estados soviéticos. Isso incluiu a ameaça de impor sanções económicas contra a Ucrânia. Em 2004 e 2006, quando o pró-ocidental Yushchenko estava no poder, a Rússia tinha cortado as exportações de gás natural para a Ucrânia devido a diferendos políticos e com isso provocou  graves danos à economia.

Mas se Putin toma esta via, certo é que ele também dá contrapartidas. Algumas semanas depois de Yanukovych ter rejeitado o acordo com a UE, Putin ofereceu à Ucrânia um pacote de estímulos no valor de US $15 mil milhões e uma redução de 33 por cento no preço para o gás natural russo. Isso tornará muito mais difícil para Yanukovych afastar o abraço de Putin, dado particularmente que muito do forte descontentamento popular se deve o facto de se estar perante uma economia muito pobre, num estado lastimoso.

7. Porque é que a Rússia está tão preocupada com a Ucrânia?

Existem razões superficiais. As ligações culturais são realmente profundas, e Putin não quer ficar assim apenas próximo de um país com tanta história partilhada e com muitos russos. O país, uma fonte de alimento e uma plataforma de trânsito para os produtos energéticos que os russos exportam, é economicamente e estrategicamente importante para a Rússia. Putin terá pensado querer que fique a seu cargo o grande acordo acerca da União Comercial da Eurásia e que este seja visto como sendo o seu legado.

E depois há também as razões mais profundas. A Ucrânia constrói ou destrói a própria imagem da Rússia como uma grande potência e em que esta se tem saído muito mal desde a queda do muro de Berlim. Como cientista político da Universidade de Tuffs em política externa, Dan Drezner escreveu em Foreign Policy “para toda a diplomacia de Putin relativamente ao Médio Oriente, a Ucrânia é muito mais importante para as suas ambições de grande potência. Uma das primeiras frases que nos  é ensinada a dizer na Faculdade em termos de política externa é : ‘ a Rússia sem a Ucrânia é um país; a Rússia com a Ucrânia é um império.'”

Mesmo que Putin não possa ter consigo a Ucrânia, ele gostaria de mantê-la fora da União Europeia, o que ele vê como uma extensão da centenária conspiração ocidental contra a Rússia. Há umas certas suspeitas persistentes em Moscou de que o Ocidente não se importava com a destruição da Rússia, e é em parte por causa disso que ele então se opõe a qualquer intervenção ocidental num qualquer outro país e em que ele receia que isto abra um precedente para um ataque semelhante na Rússia no futuro. E é por isto que, embora isto possa parecer uma tolice, alguns especialistas sobre segurança tendem a enfatizar a importância da Ucrânia para a Rússia, como um tampão de segurança.

8. Porque é que os Estados Unidos ou a Europa não se tem preocupado com isto?

Os países ocidentais poderiam pressionar Yanukovych para parar com as suas acções tingidas de autoritarismo desde o início da crise (o Parlamento ucraniano recuou  quanto a uma grande parte da lei sobre os protestos, na terça-feira). Mas a maior parte do poder parece estar com Putin e com os ucranianos actuais, por isso não está claro o que é que o Ocidente poderia fazer. No New York Times quatro antigos (!) embaixadores dos Estados na Ucrânia e questionados sobre o que se poderia fazer pela Ucrânia (What the West Must Do for Ukraine) apelaram para os Estados Unidos tomarem uma posição acrescentaram que se poderiam utilizar as sanções económicas.

Porém, o perigo é que qualquer acção ocidental suficiente forte para fazer a diferença corre o risco de um efeito de repercussão que poderia piorar as coisas. Se o Ocidente fica muito agressivo sobre a questão de forçar Yanukovych, então a metade oriental do país, a metade do país de dominante russa poderia vê-la como uma intromissão estrangeira que não seria então considerada como  muito diferente do envolvimento da Rússia..

Em última análise, as questões mais profundas são a economia conturbada da Ucrânia e a sua identidade nacional ainda não resolvida. Os países vizinhos s (incluindo a Rússia) certamente podem ajudar a resolver a questão da economia fortemente abalada mas a segunda grande questão, a da identidade, só pode ser resolvida por ucranianos.

9. Eu saltei para a última pergunta. O que vai acontecer a seguir?

O Parlamento revogou a maioria da lei anti-protesto que tanto tinha irritado as pessoas. Também aprovou uma amnistia protegendo  os manifestantes desde que deixem de ocupar os edifícios do governo.

Putin colocou a sua ajuda financeira de US $15 mil milhões em espera, o que pode realmente tornar mais fácil para Yanukovych se distanciar de Putin e recuar, aproximando-se da Europa e assinando com esta o seu acordo comercial.

Por agora, os protestos continuam a alastrar, incluindo as regiões a leste do país, a zona da língua russa. Agora, a crise imediata é bem mais do que o acordo com a União Europeia ou a divisão cultural ou mesmo a lei anti-protesto, mesmo que tenham sido todas estas questões que trouxeram a crise até este ponto. Yanukovych não é um grande defensor do tratamento dado à crise nestes dois meses, que  o  terá forçado a ficar sem grande espaço de manobra..

Há conversas entre os analistas, em Moscovo assim como em Washington, que se Yanukovych entra em pânico e se chama as forças armadas para dispersar os manifestantes poderá levar a uma guerra civil. Por agora, parece ser uma possibilidade extremamente remota. Provavelmente, será mais viável que o governo e os líderes da oposição cheguem a um acordo, de que o governo apesar de tudo, se mantenha,  mesmo a estrebuchar [desajeitado, de forma mais ou menos caótica ou lodosa] até às eleições de 2015 nas quais o presidente será derrotado.. Mas o facto de que a guerra civil está a ser discutida por toda a gente mostra o grau de preocupação internacional e a incerteza em torno do que pode acontecer a seguir na Ucrânia.

A Rússia terá oferecido  fortes garantias de não-intervenção na  Ucrânia. Mas os especialistas dizem que o Kremlin está a acompanhar os acontecimentos de  Kiev com uma preocupação  crescente  tanto quanto o  controle da situação pelo governo central é cada vez mais ténue  e avisa que Moscovo pode reagir mal se o movimento de protesto de já mais de dez semanas levar a alterações  constitucionais rápidas na Ucrânia.

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Para ler a Parte III deste trabalho sobre a Ucrânia, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

SOBRE A UCRÂNIA, SOBRE PERGUNTAS QUE NÃO FAZEMOS, SOBRE RESPOSTAS DE QUE PRECISAMOS – a partir de MAX FISHER E WASHINGTON POST FOREIGN STAFF e de LEONID PEISAKHIN

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