COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 10 – por José Brandão

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Por fim, Sidónio concluiria esta parte da sua intervenção com o seguinte pensamento:

 «Lentamente tem evolucionado a Universidade, e como um organismo que no decorrer dos séculos em gerações sucessivas se transforma conservando certos órgãos embora atrofiados que já não correspondem a nenhuma função, assim aqui sobrevivem estas fórmulas anacrónicas, vestígios mais ou menos extensos de uma estrutura de outras épocas.

Purifique-se a atmosfera destas poeiras seculares, deixem-nos respirar a plenos pulmões o ar puro e vivificador da liberdade de pensamento.

Como a mulher de César, que devia não só ser honesta, mas parecê-lo, a Universidade não deve só ser moderna, mas é preciso que não pareça velha.»

 E, no essencial versando o mesmo tema da reforma das velhas praxes e disposições obsoletas que regulamentavam o Ensino, Sidónio terminaria a sua oração da sapiência.

Nada mau, para quem dentro de poucos anos reagiria de forma completamente oposta. De facto, uma das primeiras medidas governativas tomadas pelo homem que em Coimbra falou assim foi precisamente restabelecer largamente a influência e o poderio da Igreja no País.

Fez tanto ou tão pouco pelo clero em Portugal que um ultrafanático do catolicismo, Cunha e Costa, haveria de dizer dele:

«É possível que, algum dia por eventual necessidade política, nalguma reunião, banquete, comício, associação ou cousa que o valha, tivesse feito coro com o anticlericalismo da enorme maioria dos seus correligionários, mas, se o fez, presumo que fosse sobre posse, sem convicção, para não desmanchar prazeres e pelo princípio do ‘Maria vai com as outras’.» (6)

Para este ferrenho católico, o que Sidónio Pais tinha alguma vez dito sobre a Igreja não passava de um equívoco facilmente compreensível.

Cunha e Costa dizia, mesmo, «não ser lícito presumir que à sua inteligência [de Sidónio], tão lúcida, à sua cultura, tão vasta, e sua sensibilidade, tão rara, pudessem jamais ter escapado a beleza moral do catolicismo e o seu incomparável espírito de organização e disciplina». (7)

Este beato, que não gostava das cores da bandeira nacional porque, na sua opinião, «nem no portão de uma quinta ficava bem», estava embevecido com as aberturas que Sidónio Pais consentia ao clero.

E o caso não era para menos. Com o decreto de 9 de Dezembro de 1917, Sidónio reintegrava os bispos e os clérigos nos seus antigos postos. As procissões e as romarias voltam às ruas sem ser necessária qualquer autorização prévia. Prédios e outras propriedades são devolvidos à Igreja. E, em 23 de Fevereiro de 1918, outro decreto o número 3856, vem revogar diversas disposições da Lei da Separação das Igrejas e do Estado.

As missas passam a poder ser celebradas para além de certas horas, sem necessidade de autorização, e volta a ser consentido o uso das vestes talares, que, aliás, nem tinha grande tradição em Portugal, resultando mais da influência espanhola e italiana.

Ainda em virtude deste mesmo decreto e da Portaria n.º 1244 de 4 de Março, são igualmente abertas algumas igrejas, como a de Nossa Senhora da Luz, em Carnide, a de S. Roque, na freguesia Sacramento, a do antigo Convento de Santa Joana, em Lisboa, de S. Pedro de Caneças, a de Fanhões, em Loures, a de S. Domingos de Rana, a de Carcavelos, a capela do Palácio de Queluz, Igreja de Santo António em Torres Vedras, etc.

Sidónio Pais viria a ser também o primeiro chefe de Estado a pôr oficialmente os pés numa igreja, desde a proclamação da República. Foi igualmente durante o seu consulado que o Parlamento republicano registou o maior número de deputados eleitos pela lista dos católicos.

A oração de sapiência de 1908 era, assim, qualquer coisa «para inglês ver» e que em 1918 Sidónio Pais faria por esquecer. Fotografias de Sidónio inundavam agora as paredes, jornais, revistas, panfletos, livros e até… santinhos: Sidónio de pé, sentado, a cavalo; Sidónio a escrever, a ler, a comandar, a saudar; Sidónio a inaugurar a sopa dos pobres, Sidónio numa festa de criancinhas (de preferência órfãos, e então se fossem «órfãos de guerra» seria ouro sobre azul), Sidónio a visitar bairros pobres e hospitais, etc., etc. A promoção da figura de Sidónio e das suas «qualidades» era, assim de uma importância fundamental para o sistema constitucional que se pretendia montar e que não funcionaria se Sidónio não conseguisse ser aceite como árbitro e não tivesse o apoio da massa pequeno-burguesa.

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