CONTOS & CRÓNICAS – “Minueto em sol maior” – por Catarina Pereira

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O fio da navalha desliza pelo pescoço e o queixo. A mulher fala em voz baixa e pausada, como a um menino mimado, enquanto estica as rugas das bochechas e raspa a barba branca cerrada. Uma gota de sangue brota no rosto impassível. Ela pressiona o corte com a ponta de um dedo, pede desculpas. Quando termina, massageia a pele de baixo para cima com o pós-barba preferido dele e beija de leve a testa ainda marcada por um hematoma. Dias atrás ele se assustou ao não se reconhecer no espelho e, na fuga, se machucou ao bater a cabeça na porta do banheiro.

Ela estende um plástico azul sobre o lençol, tira-lhe o robe de seda japonesa – presente do último aniversário – deita-o na cama, nu. Enche com água morna uma cuba de metal, molha uma esponja, esfrega em silêncio o corpo magro manchado de senilidade, dedicando atenção especial às dobras das articulações e ao sexo.

Depois de secá-lo meticulosamente, veste nele um pijama limpo e as meias de sola emborrachada. Senta-se na cadeira ao lado da cama e observa com ternura o homem corroído pela desrazão. Ele olha o teto, imóvel. Ela gosta de pensar que ao menos sonha.

Mais tarde, coloca o braço da vitrola sobre o disco já muito gasto e, igual a cada tarde nos últimos seis anos, o Minueto em sol maior de Beethoven se espalha pelo quarto, como num outro dois de setembro cinqüenta anos atrás, ela sente uma grande vontade de dançar.

Erguendo-o pelas axilas, coloca-o em pé e entrelaça suas mãos nas dele. O homem move os pés pesadamente, sem atentar o ritmo, fora de compasso, como se arrastando por um lodaçal. A mulher o guia com um sorriso, se aproxima, beija-lhe os lábios ressecados.

Por um momento, a luminosidade daquela viagem à Grécia parece faiscar nos olhos dele, o mar tranqüilo, a brisa fria da manhã, a sensação de invulnerabilidade no alto do convés, o apito do navio ao se afastar do cais, a multidão agitando lenços brancos.

Ela ao seu lado, pouco mais que uma menina de modos toscos, grosseiros até, para um homem das leis, a mão poderosa acariciando-lhe a nuca. E as noites. A pequena orquestra comandada por um pianista cego, os bailes, o capitão fazendo as honras ao lado da condessa russa, o álcool e o riso, o silêncio do camarote entrecortado pelos ruídos dos amantes. Noites com sabor masculino e doce.

No instante seguinte, ele recolhe as mãos com um tranco. Os olhos verdes muito escuros novamente vagos. A mancha de urina se alastra na flanela acinzentada do pijama, mas ele continua dançando, alheio.

Ela se afasta. Vigia de longe os movimentos vacilantes. E deseja com todas as forças que ele morra sem demora, no meio de um sonho.

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