Como sabemos, quando a prensa de Gutenberg entrou em expansão, com oficinas a surgir por toda a Europa, houve quem temesse que a imprensa pusesse em risco, não só o trabalho dos copistas, mas também a forma mais popular de comunicar com as massas – a arquitectura gótica, através das quais multidões de gentes iletradas, que faziam das catedrais o seu local de encontro e de passeio dominical (tal como hoje as famílias vão ao centro comercial) «liam», nos elementos escultóricos de pórticos, túmulos, capelas e retábulos, passagens das Sagradas Escrituras. Hoje teme-se que as novas tecnologias da informação ponham o livro em risco de extinção.
Na defesa do livro impresso não entra o antagonismo contra as novas tecnologias. As muitas modificações por que o negócio irá passar têm de ser assimiladas de montante a jusante. Penso que se trata de um falso receio e de um falso problema. As novas tecnologias só podem ser aliadas do livro, nunca adversárias. Concorrentes, sim, inimigas, não. Embora o cenário mude – já mudou – e os editores tenham de se adaptar à mudança. Peter Mayer defendeu, como vimos, a prevalência do feeling editorial. Mas o instinto, a que também podemos chamar vocação, existe em todas as profissões. Um professor sem vocação, por melhor que tenha sido o seu percurso académico, será sempre um mau professor. O mesmo se passa com os médicos ou com os agricultores. Mas um analfabeto, por maior que seja a sua vocação, não pode ensinar. Médicos autodidactas, por mais cheios de vocação que estivessem, aumentariam exponencialmente a taxa de mortalidade. Mas enquanto os barbeiros deixaram de poder exercer Medicina, o editor «sem mestre, mas com jeito» continua a poder editar.
A formação especializada aliada ao feeling, ao instinto, à vocação, produzirá melhores editores e é indispensável. Em Oxford, em Bolonha ou na Complutense, há cursos na área das Ciências da Edição. Devem existir muitos mais por esse mundo fora. Em Portugal, desde há duas décadas existe um curso de especialização em Técnicas Editoriais na Faculdade de Letras de Lisboa. Posteriormente foram criados cursos similares na Católica e na Nova. Mas, dir-se-á – tanta atenção prestada aos editores e então os autores?
Na realidade, o livro começa no escritor. E para essa génese não existe formação específica. O feeling, o instinto são úteis para quem quer escrever livros que se vendam. O escritor ou tem talento (génio, é preferível) ou não tem; ou tem coisas importantes a dizer ou não tem. E se o que escreve e como escreve só a ele encanta, não há curso de escrita criativa que lhe valha. Mas o problema do sector editorial não tem a ver com falta de originais. Por isso não dediquei muito tempo a este primeiro segmento, principal profissão do livro. O que no escritor tem de mudar relativamente ao novo quadro que se está a criar, é a atitude e a expectativa. O escritor tem de encarar o seu trabalho como um empreendimento, não ficando passivamente à espera de ser descoberto. A auto-edição é uma via interessante e a edição em e-book também. Mayer disse que as chancelas editoriais irão sendo menos – o escritor terá a sua própria marca. Se aquilo que escreve interessar aos editores eles aparecerão fazendo-lhe propostas.
Em Portugal temos um caso de auto-edição muito famoso – o de Miguel Torga. Creio que todos os editores portugueses (e não só) o quereriam ter no seu catálogo. Sem estudos de mercado, sem campanhas de publicidade, sem suporte logístico, construiu uma obra, publicou-a e o seu valor foi reconhecido.
Um pormenor – Torga tinha a tal dose de talento que se costuma designar por génio.