COMO SE MATA UM PRESIDENTE -11- por José Brandão

António José Telo faz notar no seu livro O Sidonismo e o Movimento Operário Português que Sidónio Pais era um presidente de rosto severo, no qual «só de ano a ano se via um sorriso». (8) Mas, apesar de ser raro ver Sidónio Pais sorrir, ele sabia tornar-se simpático junto das massas que o aplaudiam e facilmente se fez considerar como o único «salvador» possível de um País tornado difícil pelos políticos tradicionais. «Tinha uma predisposição anímica de sugestionabilidade, a que ouso chamar o seu mimetismo espiritual» — anota Cunha Leal no seu livro de Memórias.

Viajava frequentemente por todo o País, fazendo das suas digressões presidenciais autênticas campanhas de propaganda a favor do partido presidencialista, que queria constituir. A epidemia de tifo que, desde Dezembro de 1917, grassava pelo Norte do País, fora a primeira oportunidade para iniciar estas digressões. Pelos hospitais do Porto andara visitando os tifosos, «sentando-se nas suas camas e acariciando-lhes as frontes febris.» (9) Ainda no Porto, durante uma exposição de rosas no Palácio Cristal, Sidónio comprara três flores por cem mil réis, revertendo esta importância a favor dos tifosos, conforme noticia um jornal da época. Nos jornais, raro era o dia em que não vinha relatada uma proeza do presidente.

O Diário de Notícias de 27 de Abril, por exemplo, faz notar que «na inauguração da sopa do Pátio das Recolhidas na Rua da Achada e que vai servir as freguesias de S. Cristóvão e S. Lourenço, o presidente Sidónio Pais é abordado por uma pobre ceguinha que oferece a S. Ex.ª uma linda palma branca, recebendo em troca 5$00».

As inaugurações das Cozinhas Económicas — «Sopas do Sidónio», como ficarão conhecidas — e que ainda hoje funcionam era uma outra oportunidade que o presidente nunca perdia.

«A Sopa dos Pobres» era uma iniciativa que O Século já patrocinava há uns tempos, mas que tinha sido criada pela duquesa de Palmela, que as fornecia gratuitamente aos mais necessitados e a troco de dois centavos por sopa aos que tinham possibilidades de pagar.

A «Sopa do Sidónio», que começou por ser gratuita no início, custava já cinco centavos na «cozinha económica» de Sintra, que o presidente inaugura em 4 de Agosto de 1918.

Estas inaugurações eram acontecimentos que o presidente aproveitava bem e que se transformavam, quase sempre, num autêntico arraial popular.

«Durante semanas estralejavam os foguetes e os morteiros anunciando a inauguração de mais uma sopa. E o Sr. Sidónio Pais lá ia, prazenteiro, satisfeito com os discursos laudatórios.» (10)

As cozinhas da «Sopa do Sidónio» espalhavam-se por várias localidades; todavia, era em Lisboa que a sua implantação se tornava mais notada.

Nos bairros de Campo de Ourique, Beato, Santa Marta, Cheias, Penha de França, S. Paulo, Mouraria, Santa Engrácia e outros, Sidónio estivera presente às respectivas inaugurações e em todas elas não deixou de fazer o discurso que a sua imprensa logo destacava.

Toda a máquina do sidonismo estava virada para o lançamento do seu «produto presidencialista». Nada era desprezado nesta monumental campanha de «salvação nacional».

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