E a presidente do Brasil vem de novo ver o Papa – Cardeal e Mundial de futebol na agenda oficial! – por Mário de Oliveira

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Nunca a presidente Dilma Rousseff poderá dizer que veio a Roma e não viu o papa. Pelos vistos, sempre que vem a Roma, e esta é a segunda vez, em pouco tempo, tem de ver o papa. E o papa tem de ver a presidente. Os dois poderes sempre se entendem. E que bem se entende esta dupla, Dilma Rousseff, do Brasil e papa Francisco, da Argentina, em Roma! Nem que, aparentemente, seja só para brincar e dizer umas gracinhas, para os grandes media verem, filmarem e mostrarem ao mundo. Pelo menos, é esta a imagem de marca que os grandes do Poder fazem questão de passar para os respectivos media. E é com essas gracinhas que nos enganam, se não formos capazes de ir mais além do que nos dizem/mostram os grandes media. Infelizmente, o grosso das populações do mundo não vai além. Mas é precisamente para essas multidões que os grandes media trabalham. As multidões são o seu público-alvo. Os grandes financeiros que os suportam, sabem que, na hora de votar, são os votos das multidões que decidem eleições. Não são os votos das minorias mais esclarecidas. E não é que até estas minorias mais esclarecidas esquecem isto? Deste modo, o Poder perpetua-se, por mais hediondos que sejam os seus crimes contra as populações. São todos dissolvidos em apenas 15 dias de propaganda eleitoral, reduzida, quase toda, aos grandes media. Eis a chamada Democracia política. Uma pulhice que, preguiçosamente, alimentamos, em lugar de, esforçadamente, assumirmos os nossos destinos nas próprias mãos, religados maieuticamente uns aos outros, sem quaisquer intermediários.

E que vem a Presidente do Brasil fazer, esta sexta-feira, 21, a Roma? Ora, o que havia de ser? Vem assistir à entronização, como cardeal, do actual arcebispo do Rio de Janeiro, D. Orani Tempesta. É que não é todas as semanas que um arcebispo do Rio de Janeiro passa a cardeal. Se acontece, é apenas uma vez na vida. E, no caso presente, aconteceu, graças aos insondáveis desígnios do papa Francisco, o tal que, no início de 2014, foi capa nas principais revistas do Poder financeiro global. E ainda há quem pense que ele veio para mudar a Igreja e o mundo!!! O caso justifica bem que a Presidente do Brasil esteja pessoalmente na cerimónia litúrgica. Porque o arcebispo do Rio, depois de receber o barrete e o anel cardinalícios, passa a integrar, de corpo inteiro, o colégio cardinalício que elege o próximo papa de Roma. E, se tiver perfil que obtenha o consenso da Cúria romana, poderá, até, vir a ser – quem sabe?! – o sucessor do actual papa Francisco. A menos que, entretanto, se declare, no novo cardeal, uma doença grave e incurável, ou a morte venha como um ladrão. Ainda assim, morrerá satisfeito, porque conseguiu chegar a cardeal. E será cardeal para sempre, nos registos da Cúria romana e nos da igreja católica romana do Brasil. Porque nos da Humanidade e da Vida, será apenas ser humano, absolutamente despojado de tudo o que, ao longo dos anos, consentiu e procurou que lhe fosse acrescentado de fora para dentro. Uma vergonha e uma feiura de todo o tamanho. Na verdade, nada mais vergonhoso e feio do que a máscara do Poder sobre um ser humano. E a máscara de cardeal, é das mais vergonhosas e feias. Aqueles vermelhos, aquelas saias, aquele barrete, aquele anel, fazem de quem os enverga uma anedota ambulante, causa e ocasião de gargalhada geral, uma espécie de Carnaval do Rio às avessas. No Carnaval do Rio às direitas, elas apresentam-se (quase) despidas. Neste carnaval às avessas, o novo cardeal do Rio apresenta-se mascarado de mulher-macho, da ponta dos cabelos à ponta dos pés. Coisas próprias de eclesiásticos celibatários à força, sem vergonha e sem dignidade humana.

A Presidente do Brasil não podia faltar a semelhante tragicomédia. Afinal, é o seu Rio de Janeiro e o seu Brasil que estão em jogo. Um cardeal no Rio pode significar, a breve prazo, um papa de Roma brasileiro. No que depender da Presidente, é garantido que será. Ela é mulher, mas como Poder, é macho. E está em todas, quando se trata de privilégios e de mordomias. Já as vítimas do Poder e dos seus agentes históricos, inclusive, dela própria, podem esperar, estendidas em padiolas, em macas nos corredores dos hospitais ou nas valetas, ou soterradas sob os escombros, ou crucificadas na cruz por toda a vida. A Presidente não tem tempo para tudo nem para todos. E faz escolhas, define prioridades. No caso, deixou o Brasil e as suas inúmeras vítimas, para vir assistir à entronização do novo cardeal do Rio de Janeiro. As vítimas, também as vítimas dos clérigos e dos pastores das igrejas cristãs, podem esperar. Os seus gritos, apesar de lancinantes, não perturbam o sono da Presidente. Muito menos, o do papa Francisco. E como haveriam de perturbar, se ambos e todos os seus pares vivem protegidos por paredes e sistemas ideológicos e teológicos, à prova de todo o tipo de ruído? É por isso que todos eles são como os ídolos religiosos: Têm ouvidos, mas não ouvem. Só ouvem os seus iguais ou os superiores a eles. E, quando calha de se virarem para as multidões, é apenas para botarem discurso e deixá-las a sonhar com os seus luxos e com o fausto das suas liturgias laicas e religiosas.

Ah! E que vai a Presidente Dilma dizer ao papa Francisco? Mas que pergunta! Então o que vai dizer? Vai convidá-lo para ir assistir ao Mundial de Futebol, no Brasil, coisa de arromba. Lá do alto da tribuna VIP. Longe dos protestos e dos milhões de favelados, dos doentes sem hospitais e dos famintos de pão e de beleza, numa palavra, longe dos crucificados que o Futebol dos milhões produz e ajuda a produzir cada vez em maior quantidade. Ou pensam que a marca CR7 e outras marcas com outros nomes sonantes se fazem, sem produzirem milhares, milhões de vítimas humanas que ficam privadas do essencial, para que elas possam nadar em dinheiro e em vilania/imoralidade de toda a ordem? Eis Francisco, o papa de Roma! Eis Dilma Rousseff, a Presidente do Brasilff! Eis D. Orano Tempesta, o novo cardeal do Rio de Janeiro! Um trio, vestido de púrpura e de linho fino, que passa a vida a passear e a banquetear-se, como, de resto, é timbre do Poder e seus agentes históricos, todos crentes em Deus, o Senhor Dinheiro!

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