Lanço a mochila aos ombros e voltamos ao caminho de Muxia. (No ano passado gostei muito de Lires: a terra dos limoeiros. Agora apenas reparo num que, com o peso dos frutos, se arrancou da terra molhada…) À saída da povoação, como eu previra, a cerveja produz efeito, por isso Franz pára, porém eu sigo em frente, depois ele acelera o passo, apanha-me pouco adiante. Antes de Frixe paro eu, enquanto Franz prossegue, as rotinas e a simetria dão-se bem com ele, ainda bem, todavia eu afasto-me do caminho, sento-me no meio dos arbustos, aqui não pode ele ver-me, escrevo duas páginas de diário, fotografo um tufo de lóios (centaurea cyanus)… Decorrida meia hora, recomeço a caminhada, mas em ritmo de tartaruga, encontro uma mulher, peço que me encha a garrafa – conversamos um bocadão. Chove cada dia, os campos são pauis, não podem semeá-los, de repente vai fazer calor, o que semearem não produzirá e portanto, por fazerem tarde as colheitas, venderão pouco com preços baixos – vão viver de quê este ano? (Falar do tempo não é crime se tivermos algo para dizer: é o caso dos cultivadores galegos.)
Pouco mais adiante sinto uma fome de tigre, sento-me na base de um cruzeiro a almoçar. E acabo por me rir: não há uma tasca onde Franz se poise com cara de quem descansa. Evidentemente… Os leitores têm razão. Se ele empurrou Mika pela falésia abaixo, o que explicaria o desaparecimento da alemã, estou bem arranjada para o enterro, pois este caminho é um corredor: bastaria Franz pôr-se à minha espera. Contudo a Áustria deve rondar os oito milhões de habitantes, já deu ao mundo o maior “serial killer” do Ocidente, seria portanto um portento que, decorridas algumas décadas, fornecesse outro ao Caminho de Santiago…
Subo ao Facho de Lourido. Encontro as espanholas com as quais caminhei à saída de Negreira: sentadas a lanchar. Desço para Muxia. Os tugas, alinhados à beira do caminho, captam uns – pálidos – raios de sol. O austríaco acelerou para a praia, de onde regrediu por falta de sinais. Informam eles. (Sucedeu-me o mesmo no ano passado mas valeu a pena: a praia é sublime.)