Novas Viagens na Minha Terra- Série II – Capítulo 196 – por Manuela Degerine

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Blues no azul

Caminho pela marginal até à igreja, construída nos rochedos, num lugar esplêndido, para mais hoje, entre verde e espuma. Vou – modéstia à parte – acompanhando Ella Fitzgerald e Louis Armstrong: “fishes are jumping and the cotton is high”. Muxia não tem algodão na terra, apenas a deslizar no azul, outra é a poesia local, mais pura e austera, couves para o caldo, uma gigante malva-rosa, muito mar e muito granito… A música não coincide com o lugar mas apenas com o meu estado de espírito.

Descubro uma turma espanhola cujos professores tentam chegar a uma síntese de textos, canções, espaços estudados: o Caminho de Santiago na Idade Média. Do ponto de vista geopolítico. Do ponto de vista cultural: poesia, música, pintura. Do ponto de vista económico: técnicas, produtos. Decorrido um quarto de hora, malgrado a arte, a manha, o humor, a competência, este rebanho, primeiro acaçapado, começa a dispersar, faltam aqui pastores, é evidente, restam cinco alunos, dois dão respostas sensatas, os outros parecem exaustos. Tanto (formação, preparação, organização) para tão pouco (atenção, retenção, motivação)… Os restantes discípulos dão berros e pinotes por cima das pedras e eu também me levanto pois, daqui por nada, corro o risco de naufragar no liceu de Sartrouville: valha-me a milagrosa Senhora desta barca.

A igreja encontra-se fechada, podemos todavia ver, através de um vidro, ex-votos de barcos que se salvaram. Regresso por um caminho com vista para a costa e a encosta, as casas, as hortas, os quintais à beira-mar floridos… Gosto muito de Muxia, sinto contudo frio, não obstante trazer toda a roupa seca, uma camisola de algodão, duas de fibras polares, um colete, quatro camadas sobrepostas, portanto não me demoro para o pôr-do-sol. O céu aliás cobriu-se e, caro Franz: começa agora a chover.

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No ano passado vim à Senhora da Barca com uma coreana que seguira o Caminho Francês. Antes de regressar a Santiago – que de ponta a ponta visitara – e apanhar o avião, projetava percorrer as praias à volta de Muxia. Na manhã seguinte também caminhei dez quilómetros por uma estrada à beira da costa e durante duas horas e meia… não passou um único carro em qualquer sentido. Esta parte da Galiza com a sua gente, os seus verdes, os seus azuis, a areia branca, as curvas de algumas praias, a luz, os odores, o silêncio, juntou-se na minha memória às ilhas dos Açores e algumas ilhas filipinas: um dos mais belos espaços da minha vida.

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