EDITORIAL – O trabalho liberta?

Imagem2Há coisas que consideramos eternas e que não passam de preconceitos, atavismos, barreiras que interpomos entre a nossa inteligência e as conclusões lógicas a que ela nos poderia conduzir. O “medo de pensar” ou, pelo menos  de deixar o pensamento ir até onde as deduções o possam levar, tem sido um grande aliado das sucessivas tiranias que, desde as cavernas, dividem a Humanidade entre dominantes e dominados, poderosos e possuídos, entre ricos e pobres. A democracia transformou-se em mais um desses sistemas. Porém, qual “ovo de colombo”, tem uma fórmula mágica – tudo se faz em nome das maiorias; ou seja, o escravo fabrica as correntes, coloca-as e agradece-as…

 Um dos pilares da injustiça que, sob várias formas, sempre tem dividido as sociedades entre os que mandam e os que obedecem, é a valorização do trabalho. As próprias classes trabalhadoras assumem o trabalho como valor absoluto. Porém, Agostinho da Silva que, podendo nem sempre ter razão, não tinha medo de pensar, afirmou que  o  homem não nasceu para trabalhar, mas sim para criar. Por seu turno, o ensaísta francês Albert Jacquard desenvolveu a defesa de uma sociedade futura menos voltada para o consumo, mais evoluída culturalmente, com uma consciência colectiva que ultrapasse interesses pessoais, de classe, de sexo, etnia, de religião ou quaisquer outros. Mais pobre materialmente e mais rica humanisticamente, regredindo do ponto de vista da posse de bens individuais e evoluindo no sentimento de pertença a uma comunidade de milhares de milhões de pessoas. Mais voltada para o ser do que para o ter.

A sua teoria de um «decrescimento sustentável», radica na tomada de consciência de que o crescimento descontrolado das economias conduzirá, com o aumento exponencial da população, ao caos social e ao extremar das desigualdades, dado que os recursos do planeta são limitados, finitos. O problema do desemprego será resolvido quando ninguém trabalhar (no sentido que damos ao termo). Hoje, para produzir alimentos ou viaturas, precisa-se de cem vezes menos trabalho do que há um século. Portanto, devíamos ter cem vezes mais tempo livre. Para criar, como disse Agostinho da Silva. Dir-se-á – criar é trabalhar. Na sociedade actual, sim – criar é trabalhar, porque o produto da criatividade é uma mercadoria. Numa sociedade cujo objectivo não seja consumir, mas sim fruir, criar faz parte dessa fruição.

As transformações que se temem – do decrescimento económico ao envelhecimento da população – não são necessariamente um mal. Ou melhor, são um mal avaliadas à luz de um sistema de valores que não são imperativos, mas decorrem de vícios comportamentais e a preconceitos – os maiores inimigos da inteligência. O argumento “sempre foi assim” (“sempre houve ricos e pobres”), não é um argumento – é um travão ao raciocínio.

1 Comment

  1. Agostinho da Silva! Um pensador livre que, a dado passo, percebeu que para contunuar a pensar livremente, teria de se despojar do bilhete de identidade e do número de contribuinte, e fê-lo. Grande Homem!

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