A paz é um bem inquestionável. E uma das coisas positivas que se podem assinalar na segunda metade do século XX, foi não ter ocorrido a Terceira Guerra Mundial. Contudo, o mundo não deixou de estar submetido a um sem número de guerras, a situações de opressão inauditas, a violências incontáveis, a flagelos gravíssimos e não parece que a maioria dos povos viva muito melhor no princípio do século XXI do que em 1950. Mas a avaliar pelo que foram as duas Guerras Mundiais, não é difícil acreditar que a Terceira Guerra Mundial teria sido pior, e que teria agravado ainda mais as situações que passamos.
Em 28 de Junho próximo, completar-se-ão cem anos que Gavrilo Princip, um estudante sérvio-bósnio, em Sarajevo, assassinou o arquiduque Francisco Fernando, príncipe herdeiro do império austro-húngaro e a esposa, a mando de uma organização que defendia a formação de uma Grande Sérvia, que incluiria os territórios da Bósnia-Herzegovina sob o domínio de Viena. Era apoiado por oficiais do exército sérvio, e também pelo império russo, em nome de uma solidariedade eslava. A Áustria retaliou atacando Belgrado, com o apoio alemão. Propomos aos nossos leitores que vejam o suplemento El País Semanal de domingo passado, 23 de Fevereiro, e leiam os trabalhos do historiador e jornalista britânico Max Hastings, Juan Carlos Sanz e Jacinto Antón, estes dois últimos jornalistas colaboradores de El País.
Hoje em dia, com tantos acontecimentos graves a ocorrerem diariamente, na Europa e no resto do mundo, tem cada vez mais importância conhecer o passado, e reflectir sobre estes acontecimentos. A situação da Ucrânia, com o cortejo de sofrimentos impostos ao seu povo, os desequilíbrios e ameaças pendentes para o próprio país, para os seus vizinhos, para toda a Europa e para o resto do mundo, justifica o esforço de um estudo aprofundado e de se tentar perceber como se chegou a uma guerra que tanto custou. Max Hastings, em dada altura, diz: Há uma coisa que é incompreensível para as gerações actuais: a maioria das nações europeias considerava a guerra não como um horror a evitar a qualquer preço, mas como um instrumento político útil. A tradução é nossa, julgamos ter compreendido bem o seu sentido. Não quer dizer, claro, que concordemos absolutamente.
As duas Grandes Guerras Mundiais tiveram origem na Europa, e nos conflitos entre as grandes potências europeias. A Europa desempenha hoje em dia um papel menos central na política mundial, o que talvez reduza as hipóteses de guerra entre os países europeus. A unidade europeia foi fomentada por várias razões, e uma das mais invocadas foi a necessidade de prevenir uma nova guerra. Contudo, o facto de não ter ocorrido a Terceira Guerra Mundial (pelo menos, até agora) não chega. É preciso muito mais. Reconhecer um perigo sem evitar outros que levam seguramente a ele, não resolve um problema, só o agrava.

