Tradução de Júlio Marques Mota. Introdução de François Asselineau.
Ucrânia: O substrato identitário da crise actual
Romaric Thomas
Parte I
Romaric THOMAS, membro de UPR, especialista do mundo eslavo e ortodoxo, transmitiu-nos uma análise histórica e erudita muito interessante sobre o substrato identitário da crise ucraniana actual. O seu texto não tem por objecto expôr as ingerências externas nesta crise mas visa a que tomemos consciência das fracturas identitárias que fragmentam a sociedade ucraniana e sem as quais estas ingerências seriam inoperantes.
Agradeço muito a Romaric esta análise muito esclarecedora – incluindo as ilustrações comentadas. Esta contribuição prova mais uma vez que o UPR é um movimento político realmente diferente dos outros, que convida os Franceses a reflectir e a exprimir o que que eles têm colectivamente de melhor..
François ASSELINEAU
24/02/2014
Como sempre – ou quase – a realidade é bem mais complexa do que as representações que dela se fazem. A crise ucraniana não é excepção a esta regra, não se resumindo nem à uma oposição entra pro e antieuropeus, como a questão nos é geralmente apresentada –pelos meios de comunicação social ocidentais, nem a uma revolução cor-de-laranja, nem a uma ingerência das potências ocidentais – Estados Unidos e OTAN à cabeça – como nos querem fazer crer. Abrange realmente linhas de fractura aparecidas desde a Ucrânia nascente, ou seja século XVIIº.
Não se pode compreender a crise actual sem se estar a ter conta do facto que a Ucrânia é um país ao mesmo tempo muito antigo e muito novo. Muito antigo na medida em que constitui o berço do mundo eslavo oriental; muito novo na medida em que se constituiu-se em Estado apenas no século XXº século, sobre os restos dos impérios russos e austro-húngaro. A edificação da Ucrânia contemporânea necessitou de uma reconstrução identitária profunda, e é na concepção que ela tem da sua própria identidade nacional que é necessário procurar as causas reais das crises repetidas que conhece desde 1989 e que põem cada vez em perigo a sua unidade territorial e política.
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I. A GÉNESE DE UMA IDENTIDADE PRÓPRIA (Séculos XVIIº-XVIIIº.)
Contrariamente à Europa ocidental, cuja unidade cultural e linguística foi sempre o fruto de uma vontade federativa e que permaneceu superficial, e à Europa central, onde os Sérvios, os Croatas, os Checos e os outros povos eslavos ocidentais constituíam entidades étnicas bem distintas, o mundo eslavo oriental conhecia desde as suas origens profundas uma unidade cultural e linguística que durou intacta até ao fim do século XVIº. Esta unidade não desapareceu com a emergência de espaços culturais e linguísticos autónomos – russos, ucranianos e bielorrusos – mas coexistiu com estas particularidades étnicas em gestação até ao século XVIIº.
O reino polaco e lituano em 1619. A palavra “Ucrânia” só começou a designar um país distinto da Polónia e da Rússia no século XVII. Designava anteriormente uma zona estreita de colonização agrícola, de cem a trezentos quilómetros de largura, que separava a floresta-estepe ao norte das regiões meridionais das estepes.
As guerras nacionais e religiosas da Europa ocidental e central quebraram definitivamente a unidade do mundo eslavo oriental. Enquanto que a guerra terminava na Europa ocidental pelo tratado de Westfália (1648), esta apanhou o reino polaco-lituano de que a Ucrânia e a Bielorússia faziam então parte, arruinou a unidade religiosa e a organização social tradicional da Ucrânia, e deu origem a concepções identitárias novas. A tradicional fé ortodoxa teve que se adaptar – a um número crescente de católicos romanos, greco-católicos (uniatas), calvinistas e socinianistas. A organização social, quanto a ela, foi abalada pela subida em força dos Cossacos, pequena nobreza militar que tomou a direcção da revolta campesina em 1648 e efectuou uma verdadeira guerra de libertação contra o ocupante polaco e a aristocracia principesca de Ucrânia.
Embora apenas uma minoria dos seus membros tenha sido realmente absorvida pelos polacos, esta aristocracia pertencia à camada mais rica e com mais títulos nobiliários do Estado polaco-lituano. O seu descrédito era tal na população que davam o nome “de Polacos” a estes aristocratas, incluindo aos príncipes que o Estado polaco-lituano perseguia pela sua fidelidade à fé ortodoxa e pelo seu apoio ao projecto que alimentava a Rússia de reunificar politicamente a seu proveito o mundo salva oriental.
Na sequência da revolta de 1648-1654, os Cossacos chegaram a fundar, na parte oriental da actual Ucrânia, um Estado – o Hetmanat – emancipado da tutela polaco-lituana e que subsistiu até à sua supressão definitiva por Catarina a Grande em 1765. Este precedente cossaco devia encarnar o ideal nacional ucraniano do século XIX.
Os Cossacos zaporogues escrevem uma carta ao sultão Mahmoud IV da Turquia (Ilya Repine, 1880-1891).
Os Cossacos são mencionados pela primeira vez num texto do final do século XIII. Na origem, tratava-se de simples camponeses que vinham trabalhar como vigias de caravanas ou até de salteadores face às hordas tátaras, desenvolvendo na altura um excepcional sentido táctico. Tendo descoberto a navegação com tanta alegria como se tivessem aprendido a montar à cavalo, e bem à vontade passaram à praticar a pirataria ao longo do Volga e no mar Negro. Rapidamente organizados em repúblicas militares, fizeram-se frequentemente mercenários, a maior parte “registados”, ou seja retribuídos por um exército regular. O Cossaco era um homem livre cujo modo de vida era caracterizado pelo gosto da liberdade e a aventura, viviam da caça, pesca, das colheita e das pilhagem sobre o inimigo. A sua pertença étnica importava pouco: os Cossacos zaporogues, sem dúvida os mais famosos, contavam uma maioria de Ucranianos e de Bielorussos, mas igualmente uma importante minoria de Polacos e de Moldavos, um destacamento de judeus, condottières das colónias italianas do mar Negro e um punhado de aventureiros franceses.


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