Um homem de capa alentejana, que umas horas antes jantara no Restaurante Silva, tinha acabado de disparar contra o presidente Sidónio Pais.
Limitara-se a empurrar um dos polícias da dupla fila do cordão de segurança e a disparar a sua arma sobre o presidente, que mal tem tempo de reagir. Sidónio Pais ainda faz um gesto, na intenção de sacar o revólver que trazia no bolso esquerdo do capote militar. Porém, um segundo tiro acerta-lhe em cheio e fá-lo cair no limiar da porta que procurava transpor.
É tudo tão rápido que só por mero acaso o autor dos disparos foi preso no local. Na infernal confusão, a Polícia e a Guarda acometem o justo e o pecador, distribuindo coronhadas ao acaso e desencadeando um furioso tiroteio, que atinge tudo o que está perto.
Fugia-se em todas as direcções, para escapar às espadas e aos sabres que não diferenciam ninguém na sua fúria vingadora. Uns refugiam-se nos comboios, outros escondem-se dentro do túnel da estação e outros, ainda, metem-se entre os fardos de bagagens e de mercadorias acumulados no cais. O próprio irmão do presidente é acutilado, no meio de todo este pandemónio. Um convicto sidonista, de nome Luís. Furtado Saraiva, caixeiro de profissão, é abatido no local, e outras quatro vidas, além de Sidónio Pais, são ceifadas pelas armas das forças de segurança.
No chão, Sidónio Pais agonizava, perante os esforços infrutíferos do capitão Carneira, que tenta, a todo o custo, salvar a vida do presidente, protegendo-o com o seu corpo do tiroteio a que se assiste.
Tal como há oito anos sucedera com o rei D. Manuel, que, no dia da Revolução de 5 de Outubro de 1910, se preparava também para seguir com destino ao Porto, Sidónio Pais já não chega a iniciar a sua viagem para a capital do Norte.
A D. Manuel II, último rei de uma dinastia que vê culminar o seu tempo na História de Portugal, restar-lhe-á um exílio de tranquilidade, que nas praias da Ericeira tem o seu princípio.
A Sidónio Pais, primeiro presidente de um autoritarismo que começou com ele e continuou para além dele, o destino garante-lhe a frieza de um túmulo que as balas de um desconhecido lhe reservam nessa noite de 14 de Dezembro de 1918.
Sidónio já não assistirá à gala que a recepção oficial se preparava para lhe oferecer no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e tão-pouco estará presente na parada militar que em sua honra desfilaria pela Avenida da Boavista.
Ao coro de Gounod a duas vozes, que vinte e cinco damas da primeira sociedade, com acompanhamento de órgão, harpa, violino e violoncelo, se aprontavam para lhe dedicar, no sarau musical oferecido pela Associação Comercial do Porto, também o presidente não dará já o contributo da sua presença física.
José Júlio da Costa, um alentejano que quase ninguém conhecia, acabara de o assassinar. Moribundo, o «presidente-rei» jazia na laje da estação que tantas vezes o recebera em delírio e que se transformara, agora, num verdadeiro inferno.
Alheio a este diabólico tumulto que o cerca, o capitão Carneira tenta erguer o corpo ensanguentado do presidente e, com o auxílio de Ferreira da Silva e de António Miguel Sousa Fernandes, mete-o no carro que o motorista José Felício Franco conduz rapidamente na direcção do Hospital de S. José.
Sidónio Pais chegará já morto ao hospital, onde o médico Torres Pereira praticamente se limita a certificar o óbito.
A fim de lhe ser injectado um líquido conservador em vasos subjacentes, foram-lhe ainda feitas seis feridas incisivas operatórias post mortem. A autópsia dirá, mais tarde, que as lesões sofridas pelo presidente eram forçosamente mortais. Ferido no lado direito da região mamária, com perfuração do pulmão direito e derrame hemático peritoneal, Sidónio Pais não podia ter mais de 15 a 20 minutos de vida.