PABLO NERUDA, UM POETA SENADOR – A FORÇA DAS PALAVRAS por Clara Castilho

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O meu caminho junta-se ao caminho de todos. E em seguida vejo que desde o sul da solidão fui para o norte que é o povo, o povo ao qual minha humilde poesia quisera servir de espada e de lenço para secar o suor de suas grandes dores e para lhe dar uma arma na luta pelo pão.

Pablo Neruda

 A 4 de Março de 1945, Ricardo Reyes Basoalto (Pablo Neruda) foi eleito senador no Parlamento da República do Chile, integrado nas listas do Partido Comunista, cargo que desempenhou durante três anos. As suas intervenções no Parlamento, onde sempre defendeu as causas sociais, políticas e culturais, foram claramente antifascistas e anti-imperialistas, manifestando-se sobre o Chile, a Espanha e as nações latino americanas.

O seu último discurso no senado, a 6 de Janeiro de 1948, é considerado digno de ficar na história do século XX. Fê-lo depois de ter publicado num jornal de Caracas a sua “Carta íntima para milhões de homens“, denunciando as traições e os crimes de González Videla  desde que saíra a “Ley Maldita”, que excluía o Partido Comunista da vida constitucional do país. Ficou conhecido como “Yo Acuso”. Em resposta, foi pedido a denúncia do seu mandato à Corte Suprema e sua prisão, o que foi aceite.

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Como desfecho previsível deu-se a passagem à clandestinidade. E foi durante essa época e trajecto que escreveu Canto Geral. Constituiu  a resposta poética de Neruda à traição de Videla e às injustiças históricas da América Latina. Nele se pode ler em verso, as palavras como armas de combate, denunciando os crimes do imperialismo americano e fazendo uma revisão histórica dos séculos de dominação estrangeira e, também, das lutas de resistência.

Os discursos enquanto senador foram recolhidos nos últimos anos pelo antropólogo Leonidas Aguirre Silva, existindo diversas edições em vários países. Do célebre discurso transcrevemos algumas partes:

“Chile es el único país del continente con centenares de presos  políticos y relegados, con millares de seres desplazados de sus hogares, condenados a la cesantía, a la miseria y a la angustia”.

 “A todos los comunistas de Chile, a las mujeres y a los hombres maltratados, hostilizados y perseguidos, saludo y digo (…)”.

“ Centenares de hombres que luchan porque nuestra patria viva libre de miseria son perseguidos, maltratados, ofendidos y condenados”.

“YO ACUSO al presidente de la República (…) de ejercer violencia para destruir las organizaciones sindicales”.

“YO ACUSO al señor González Videla por la mala conducción de nuestras relaciones exteriores que han llegado a ser un ejemplo continental de frivolidad y de inconsecuencia”.

“YO ACUSO al presidente de la República de la desorganización y descenso de la producción”.

“YO ACUSO al señor González Videla de empeñarse en una guerra inútil y estéril contra el pueblo y el pensamiento popular de Chile, y de querer dividir artificialmente a los chilenos”. “YO ACUSO al señor González Videla de tomar medidas contra la libertad de opinión (…)”.

“YO ACUSO al presidente de la República de falta de fe en su país, lo acuso de solicitar y soñar con empréstitos extranjeros (…) aun a costa de recibir el país las peores humillaciones, en vez de formular  una política grande, digna y amplia que dé trabajo a los obreros chilenos y empresas a los industriales de nuestro país”.

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