COMO SE MATA UM PRESIDENTE -25 – por José Brandão

Na madrugada do dia 14 de Dezembro andou pelos lados da Igreja da Encarnação, no Largo do Chiado, e soube que o presidente estava ali, numa cerimónia religiosa de «homenagem aos heróis do caça-minas Augusto de Castilho». Neste dia rondou, ainda, pelo Palácio de Belém, aguardando o regresso de Sidónio Pais, mas, cansado de esperar, acabará por voltar ao Rossio, onde sabia que o presidente deveria embarcar com destino ao Porto.

«A pistola já está pronta», conta José Júlio da Costa, «o dedo no gatilho; para tapar a pistola tinha levado um capote alentejano, que só estava sobre os ombros e, quando o presidente vem quase junto de mim, dei um empurrão nos guardas e, ao mesmo tempo que abria caminho, partiram dois tiros. Foram os dois sobre o lado direito, um para junto do braço e outro no ventre. A República Nova morria com o seu presidente. Não dei um passo para fugir. Acabava assim o absolutismo.» (6)

«Morro bem! Salvem a Pátria!», afirmam alguns que Sidónio teria dito ao despedir-se deste mundo. Contudo, sobre a autoria destas últimas palavras parece já a maioria estar certa não ter sido Sidónio quem as proferiu.

A frase é atribuída ao famoso Repórter X (Reinaldo Ferreira), que na época escrevia no Diário de Notícias.

David de Carvalho (7), que também fala sobre o caso, refere que foi Rocha Júnior, então chefe de redacção do Diário de Notícias — não contente com a simplicidade com que o seu repórter Adriano Costa relatava o acontecimento —, quem mandara acrescentar o «Morro Bem! Salvem a Pátria!» ao que Sidónio teria proferido no seu último adeus à vida.

Outra versão é ainda adiantada por Feliciano da Costa, que, durante a sessão parlamentar de 8 de Janeiro de 1919, destinada à apresentação do novo Governo sob a presidência de Tamagnini Barbosa, atribuirá a improvisação do sonoro «Morro bem! Salvem a Pátria» ao «fecundo invencionismo» do capitão Cameira.

Entretanto, a repressão vingadora tinha começado logo após o assassínio do presidente. Machado Santos que, nesse instante, estava a sair de um café no Rossio, chegando ainda a ouvir os tiros e a assistir às desatinadas correrias que se verificam por toda a praça, entende ele próprio refugiar-se no Governo Civil, depois de constatar que o seu domicílio na Rua José Estêvão não lhe oferecia grande protecção, face à avalancha de vindictas que estalavam por todo o lado.

A pouco mais de uma hora sobre o assassínio do presidente, a sede da Maçonaria Portuguesa, no Bairro Alto, volta a ser assaltada por um grupo de arruaceiros em que se distinguiam o alferes de Artilharia Pedro Vilar Moreira e o aspirante Carmona, monárquicos de primeira cepa, que umas horas antes se tinham encharcado de vinho num jantar no restaurante Ferro de Engomar.

Na manhã seguinte, os «lacraus» desfazem, à paulada, uma festa de noivado e acabam por prender as 30 pessoas que se encontrava ali, acusando-as de estarem a festejar o atentado da noite anterior.

Três horas depois do crime, a Polícia prenderá o grão-mestre da Maçonaria Portuguesa, acusando-o de envolvimento no atentado.

A Polícia diz ter encontrado nos bolsos de Júlio da Costa uma carta endereçada ao Dr. Magalhães Lima e afirma que o grão-mestre da Maçonaria recebera várias vezes, no hotel onde estava instalado, o assassino do presidente.

Na verdade, José Júlio chega a avistar-se, dois dias antes do atentado, com Magalhães Lima, no quarto do antigo Hotel Francfort, na Rua de Santa Justa, onde o grão-mestre maçónico se encontrava doente. Na presença de outras duas pessoas, Júlio da Costa falará sobre questões que se passam na sua terra natal, mas deixa o quarto de Magalhães Lima sem mencionar qualquer facto relacionado com o atentado que se preparava para cometer.

Suspeita-se agora de toda a gente. Até de Brito Camacho, antigo chefe político de Sidónio, que também vai parar ao Governo Civil, onde tem de passar uma noite, refugiando-se, de seguida, em Aljustrel, terra de seu nascimento.

Há prisões por toda a cidade e supostos complots revolucionários são descobertos em Carnide e Alcântara. Na Rua Anchieta diz-se terem sido barbaramente assassinados a tiro alguns infelizes cujos nomes nunca vieram a público.

No dia 18 são presos dois suspeitos, tidos como cúmplices de Júlio da Costa: Carlos Pinto, que estava com ele no Hotel Internacional, e um homem denunciado pela dona de um bordel na Rua das Gáveas, de nome José Areal e mecânico de profissão. Neste mesmo dia, o suicídio de um comerciante, Luís Filipe da Silva, é inexplicavelmente relacionado com a morte de Sidónio Pais e isto só porque se descobriu em casa do suicida uma colecção de gravuras sobre o assassínio do rei D. Carlos.

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