EDITORIAL –AINDA O ACORDO DE TODOS OS DESACORDOS

logo editorialO Acordo Ortográfico continua a constituir motivo de desacordo, multiplicando-se as intervenções apaixonadas, alguns exageros e catastrofismos vaticinados para um futuro que, para os acordistas, sem Acordo será o fim do idioma, isolado e remetido para o foro da arqueologia linguística; para os que o condenam, o AO significa uma destruição pura e simples da língua. E no meio não há virtude.

Miguel Sousa Tavares diz que o Acordo Ortográfico «é um acto colonial do Brasil sobre Portugal com regras que não são recíprocas». Lembramos-lhe que essa brasileirização não deve ser imputada ao Acordo – começou há quase quatro décadas com a invasão das telenovelas e com uma progressiva adopção de expressões brasileiras no português do quotidiano. Um exemplo dessa submissão são os festejos de Carnaval, com jovens seminuas no Inverno europeu, rebolando-se como se fosse Verão tropical e as ruas das suas pitorescas vilas e cidades um sambódromo carioca. Na Madeira atinge-se o paroxismo dessa falta de orgulho nacional, gastando-se (em nome de um retorno financeiro por via do turismo) dinheiro que do erário público sai para bizarrias sem sentido. O Acordo está inocente nestas manifestações de idiotia.

No DN, Vasco Graça Moura assina um artigo de opinião, “Omnes discrepantes”. Diz: «A língua está a ser destruída. Não conheço hoje muitos políticos que sejam a favor disso. Se falarmos de outros utentes qualificados, também não, salvas as excepções menores do costume e as propensões para a cedência do costume. E estamos a falar de Portugal. Se passarmos a Angola temos uma noção de como se pode e deve defender a língua de um país, das suas tradições, da sua cultura, das suas relações humanas e sociopolíticas, enfim, da sua identidade. Quanto ao Brasil, faz o que entende e não se sente vinculado por uma série de baboseiras que, está mais do que demonstrado, são perfeitamente inconstitucionais no nosso país».

Temos defendido no nosso blogue uma posição que, não sendo neutral, recusa tremendismos e previsões de destruição do idioma que nos parecem exageradas. O idioma é, na nossa opinião, suficientemente forte para resistir a tigres de papel… Mas recusamos igualmente a defesa do Acordo feita com base em objectivos políticos ou em eventuais vantagens, como sendo a de poder vender livros escolares nos países africanos de língua portuguesa ou abrir o mercado brasileiro às edições portuguesas – Acolhemos todas as posições, mas não somos obrigados a concordar com todas elas. Um debate sério e aberto é uma hipótese que vemos com agrado.

 

2 Comments

  1. Uma língua falada e com a dispersão que tem o portugês, é uma língua viva e portanto evolui. Adquire novos sons, novos vocábulos e novos significados e sentidos, novas expressões idiomáticas – é normal! Só não vejo necessidade de tornar obsoletas as ortografias nem vejo vantagem em homogeneizar o idioma!
    Não adiro à nova ortografia.

  2. Não tenho que dar opinião, mas achei muito melhor esta abertura do que a anterior sobre o mesmo tema, em que também deixei o meu comentário. É interessante: eu concordo com tudo o que diz a Teresa B, mas aderi à nova ortografia. A língua pode perfeitamente adquirir novos sons, vocábulos e sentidos, mas passamos todos a escrever segundo os mesmos princípios.

    Isso configura “uma” língua – rica, una mas plural. O acordo veio acabar com o artifício de escrevermos de maneira diferente o que dizemos da mesma forma (por exemplo a palavra ativo) sem deixar de permitir que a escrita represente as nossas diferenças no que realmente interessa, que é a forma como falamos (por exemplo aspeto e aspecto).

    Parabéns ao Carlos pela abertura à opinião contrária e à possibilidade de mudança de perspetiva.

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