CONTOS & CRÓNICAS – “Maria Rita” – por Margarida Ruivaco

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Maria Rita saiu de casa, depois de se ver trinta e duas vezes ao espelho para compor qualquer cabelo em desalinho, alisando um vinco imaginário da blusa, verificar a pintura dos olhos, alguma nódoa imaginária.

Consultou o relógio e saiu. Saiu à hora certa, nem um minuto antes, nem um depois, nervosa, contraída, antevendo, antecipando e ensaiando o que iria fazer ao longo do dia. Igual ao de ontem, por sinal, e, se tudo corresse bem, igual ao de amanhã.

Sentiu a contrariedade de o lugar da paragem de autocarro estar ocupado por alguém desconhecido,e no banco da janela à direita da terceira fila estar sentada uma senhora gordíssima. Sentou-se na janela à esquerda, e suspirou, desejou, rezou para que não fosse um mau presságio.

Obviamente que o autocarro não chegou à hora prevista, nunca chegava, mas por isso é que ela saía sempre mais cedo. Podia fazer um compasso de espera adequado para que a entrada no escritório ocorresse à hora exacta, não antes, não depois das oito e cinquenta em ponto.

Da mala, tirou um gancho, e pendurou-o na borda da secretária. Suspendeu nele a mala, alinhando a alça de tiracolo. Abriu a gaveta de baixo de um módulo de três e nela colocou a lancheira. À direita do monitor, arrumou a garrafa de água e um pequeno termo de chá. Espreitou a caneca, e comprovou que se mantinha limpa.

Soprou o monitor, soprou o teclado, passou um toalhete húmido pelas superfícies de trabalho e secou-as com um lenço de papel esverdeado. Compôs as resmas de papel, alinhadas antes, alinhadíssimas depois. Mirou-se no monitor. Estava tudo bem. Mudou a folha do calendário, alinhou canetas, verificou as minas da lapiseira, tirou um risco negro da borracha. Colocou a dedeira de silicone. Suspirou. Meditou. Concentrou-se. Sorriu a si mesma e ligou computador e monitor. Estava pronta.

Os dias programados e rigorosos só poderiam correr bem. Se nada interferisse, se uma guia não viesse riscada ou incompleta, se a factura batesse certo com a guia, se o saldo estivesse correcto, se o stock coincidisse, então o dia ia ser bom. A felicidade e segurança do seu dia  era passar todas as horas destinadas a trabalho, conferindo facturas e guias, inserindo dados e estatísticas no computador, fazendo vistos, certos e assinaturas em páginas e páginas de contas, criando tabelas e folhas de cálculo. O seu sonho de vida. A sua realidade. Até à hora de sair.

Nem todos se podiam gabar de ser felizes no que fazem…ela sim.

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