COMO SE MATA UM PRESIDENTE -26- por José Brandão

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Enquanto isto, o novo Governo, sob presidência de Canto e Castro, decreta «que se tome luto geral por espaço de trinta dias, sendo os primeiros quinze de luto pesado e os restantes de luto aliviado».

A demonstração do luto é praticamente obrigatória, chegando a Polícia a exigir que os sindicatos ostentem as respectivas bandeiras a meia haste, ao mesmo tempo que a sanha dos adeptos do chefe assassinado impunha o uso da gravata preta ou das braçadeiras negras que o Depósito-Geral de Fardamentos confeccionava em grandes quantidades para o funeral que se aproximava.

No Rossio, o Café Chave de Oiro era o «quartel-general» dos extremistas do sidonismo. Na entrada principal encontrava-se, numa das primeiras mesas, uma lista de recolha de fundos para a aquisição de uma coroa de louros, em bronze, que se destinaria a ser colocada no túmulo de Sidónio.

Quem não se dispusesse a contribuir para tal finalidade tinha de haver-se com os fautores do piedoso peditório. Foi o que aconteceu a Cunha Leal, que, ao ser abordado, se escusou na contribuição voluntária e muito mais na coerciva. Viu-se então perseguido quando procurava alcançar a sua residência, situada na Rua Francisco Sanches, junto à Praça do Chile, e só com alguma sorte conseguiu trocar as voltas aos seus perseguidores.

É neste clima explosivo que o funeral de Sidónio Pais vai realizar-se no dia 21 de Dezembro de 1918.

Será a mais importante cerimónia fúnebre vista desfilar pelas ruas da cidade. Desde o Largo da Câmara Municipal até ao Mosteiro dos Jerónimos, milhares de pessoas assistem à passagem do cortejo fúnebre.

Nas floristas e nas agências funerárias tudo se encontra esgotado.

Só no primeiro dia do funeral são encomendados mais de 250 contos em coroas de flores.

Vêem-se carretas, carroças e automóveis carregados de coroa de flores, doadas pelos mais diversos ofertantes. Bem notadas são as duas carretas repletas de coroas enviadas pelos empregados dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, bem como a vasta representação do pessoal da Carris, que desfila com estandarte e coroa a abrir a sua deputação. Em Santo Amaro, as portas onduladas dos hangares dos eléctricos encontrar-se-ão corridas, como sinal de sentimento à passagem do cortejo, e, nas janelas dos escritórios viradas para a Rua 1.º de Maio, um grande pano preto, exprimindo o sentir do pessoal da Carris, está colocado a toda a largura do edifício.

O cortejo tinha-se iniciado cerca das 15 horas, depois de o prior de S. Julião, reverendo Joaquim Alberto, ajudado pelo prior de Belém, Adriano Nogueira, ter procedido a uma breve encomendação do corpo e de a urna ter sido removida para o armão. No desfile tomam parte crianças vestidas de anjinhos, iniciativa do Sr. Eduardo O’Neill Baptista e dos jornais Tempo e Situação.

Ao passar pela Rua Augusta, o cortejo, que seguia pela Baixa e pelo Chiado em direcção a Belém, transforma-se num verdadeiro pandemónio, quando alguns tiros começam a ser ouvidos, vindos não se sabe bem de onde, e os soldados dão em disparar as armas à doida.

Para uns, tal tumulto ficou a dever-se aos gritos de um cidadão que se viu roubado da carteira e à pressa com que um polícia disparou a sua pistola para deter a fuga do ladrão.

Para outros, foram as bombas lançadas do telhado do prédio n.º 124 da Rua Augusta, ou das janelas do Hotel Duas Nações, a causa da inferneira que deixa por terra mais sete mortos e dezenas de feridos.

O pânico foi praticamente geral. A custo se consegue evitar que o caixão de Sidónio Pais tombe na calçada. Um grupo de crianças, alunos do Colégio Militar, que faziam guarda de honra junto do armão, são dos poucos que nesta confusão conseguem manter a serenidade e continuar nos seus lugares. Na segunda fila desta guarda de honra encontrava-se um jovem aluno de 12 anos chamado Humberto Delgado.

Depois de tudo normalizado, o cortejo volta ao seu andamento. É, na realidade, um funeral espectacular. Há bandas e orquestras por todos os cantos a tocar numa última homenagem a Sidónio Pais. No estrado erguido no Largo das Duas Igrejas a orquestra sinfónica do Teatro S. Luís, dirigida pelo maestro Pedro Bianche, toca a Marcha Fúnebre de Chopin. Em frente aos Jerónimos, a banda dos alunos da Casa Pia, dirigida por Câmara Leme, executa A Morte de Um Herói, de Beethoven.

Nos Jerónimos as cerimónias religiosas, dirigidas pelo reverendo beneficiado Eduardo Coelho Ferreira, terminaram depois do Libera me e de o Cardeal-Patriarca sair em procissão da capela-mor, acompanhado do cabido, párocos e demais clero, para junto do féretro, onde seguidamente acabará por incensar e aspergir, lançando a absolvição final sobre o ataúde onde repousa Sidónio Pais.

Na imponência de tão grandiosa manifestação, as mulheres estarão, uma vez mais, ao lado de Sidónio. O autor de Sidónio na Lenda descreve assim este dia que entristece as mulheres de Portugal:

«Em terra celebram-se os funerais do falido capitão que uma loucura colectiva apodou de herói! Troa o canhão de meia em meia hora!

Um histerismo sensual acomete as mulheres. Raro é o marido ou amante a quem a fêmea não pretenda convencer da beleza do herói morto.

Todas elas se cobrem de crepes, velhas e moças, a exemplo das antigas carpideiras, lá vão em procissão, pelas ruas fora, visitar o catafalco onde, entre flores odoríferas, repousa o cadáver do que em vida fora para elas o sensual amante dos seus sonhos eróticos.

Algumas, em presença do cadáver, são sacudidas por contorções epilépticas, outras ululam a sua dor como cadelas ciosas.

Morrera-lhes o noivo, o amante de bronze, incansável Hércules das alcovas…» (8)

Roma Neto, autor do livro A Morte do Dr. Sidónio Pais e a Actual Situação Política, é mais generoso para com o falecido e coloca a admiração das mulheres por Sidónio Pais numa perspectiva mais querida aos defensores do presidente.

«Todos os olhos lindos de Portugal choraram por Sidónio Pais!», diz Roma Neto. «Todas as mulheres de Portugal viram em Sidónio Pais o amparo da sua terra desgraçada, todas o admiravam como o herói do sonho, descido à terra para a salvar.» (9)

A condessa de Ficalho lá está nos Jerónimos, rodeada de enfermeiras da Cruz Vermelha, a remover as compressas desinfectantes, colocadas para atenuar os efeitos da decomposição do cadáver do presidente.

«As senhoras da alta choravam a morte do seu encantador Adónis», acrescenta, ainda, o autor de Sidónio na Lenda, «e lembravam-se, com saudade, das suas roçadelas de gatas lúbricas e marradinhas contra o vistoso manto do ditador!» (10)

«Nos Jerónimos, muitos tinham ‘bilhete permanente’ e iam visitá-lo todos os dias», diz, por sua vez, Raul Brandão no Vale de Josafat. Quanto ao homem que matara Sidónio Pais, o seu destino iria caracterizar-se por um percurso recheado de factos estranhos.

No Rossio, é salvo de linchamento certo e levado para a Escola de Guerra, onde os militares voltam a descarregar sobre o seu corpo, já quase desfeito, toda a espécie de pancadaria.

Contudo, sobreviverá, indo parar à Penitenciária de Lisboa e, mais tarde, ao hospital de doidos, que o povo chamava Rilhafoles.

Maria Feio, a autora que leva a sua admiração por Sidónio ao ponto de querer provar o parentesco do presidente com D. Nuno Alvares Pereira, afirma ter visitado José Júlio da Costa na Penitenciária de Lisboa e que este se mostrara profundamente arrependido do seu acto:

«— Juro-lhe, minha senhora, que se hoje pudesse dar a vida para restituir Sidónio Pais à família, apartado de lutas políticas, faria saltar os miolos com uma bala», garante Maria Feio ter ouvido da boca do homem que matou Sidónio Pais, quando lhe disse:

«— Eu creio que o seu coração se há-de enternecer ao pensar na dor que causou à filha de Sidónio Pais.» (11)

Nessa mesma ocasião, o sindicalista Manuel Ribeiro fazia também a sua entrevista a José Júlio da Costa e conta que ao perguntar-lhe: «— Nunca sentiu remorsos? Sempre é uma morte», Júlio da Costa lhe teria respondido: «— Qual! Matava-o segunda vez…»

Estava-se, então, já a muitos dias da data gloriosa para a causa republicana. Da Carbonária Portuguesa já só havia a recordação da sua imponente presença no tempo da Revolução.

A I República aproximava-se do fim. No final estavam, porém, desde há muito, quase todos os que se haviam destacado nesses dias de Outubro, principalmente os dirigentes da C. P. como Machado Santos, José Carlos da Maia e António Granjo.

O destino não podia estar a reservar-lhes pior fim para as suas vidas. Na noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921, onze anos depois da madrugada de 5 Outubro de 1910, caem às balas de um grupo de assassinos que se faziam transportar na famosa Camioneta Fantasma comandada pelo famigerado «Dente de Ouro».

NOTAS
Capítulo I
1 António de Albuquerque, Sidónio na Lenda, Lisboa, 1922, p. 15.
2 Jesus Pabón, A Revolução Portuguesa, Lisboa, 1951, p. 310.
Capítulo II
1 Sousa Costa, Páginas de Sangue, Lisboa, 1938, p. 166.
2 Cunha Leal, As Minhas Memórias, Vol. II, Lisboa, 1967, p. 70.
3 Jesus Pabón, ob. cit., p. 291.
4 Vaga de assaltos a estabelecimentos e armazéns de géneros alimentícios em Maio de 1917.
5 Sousa Costa, ob. cit., p. 167.
6 António José Telo, O Sidonismo e o Movimento Operário Português, Lisboa, 1977, p. 136.
7 Autor Desconhecido, Um Golpe de Estado, A Revolução de 8 de Dezembro, Lisboa, 1918, p. 12.
8 A. H. de Oliveira Marques, Afonso Costa, Lisboa, 1975, p. 177.
9 ob. cit., p. 179.
10 ob. cit., p. 182.
11 Jesus Pabón, ob. cit., p. 294.
12 Ibidem.
13 A. H. de Oliveira Marques, ob. cit., p. 184.
14 ob. cit., p. 185.
15 ob. cit., p. 174.
16 ob. cit., p. 189.
17 A. H. de Oliveira Marques e Fernando Marques da Costa, Bernardino Machado, Lisboa, 1978, p. 192.
18 Jesus Pabón, ob. cit., p. 295.
Capítulo III
1 João Medina ao Comércio do Porto de 22 de Fevereiro de 1982.
2 Raul Brandão, ob. cit., Vol. III, p. 96.
3 António de Albuquerque, ob. cit., p. 10.
4 Jesus Pabón, ob. cit., p. 312.
5 Sá Cardoso, Memórias Duma Época, Lisboa, 1973, p. 28.
6 Cunha e Costa, A Igreja Católica e Sidónio Pais, Coimbra, 1921, p. 151.
7 Ibidem.
8 António Telo, ob. cit., p. 181.
9 Jesus Pabón, ob. cit., p. 312.
10 Roma Neto, A Morte do Dr. Sidónio Pais e a Actual Situação Política, Lisboa, 1919 (?), p. 25.
11 João de Castro, Um Ano de Ditadura. Discursos e Alocuções de Sidónio Pais, Lisboa, 1924, p. 60.
Capítulo IV
1 Rocha Martins, Memórias Sobre Sidónio Pais, Lisboa, 1921, p. 96.
2 Sousa Costa, ob. cit., p. 176.
3 ob. cit., p. 175.
4 Alfredo Pimenta, A Situação Política, Lisboa, 1918, p. 33.
5 ob. cit., p. 28.
6 José Botelho Carvalho Araújo, militar e político, republicano activo, participou no 5 de Outubro de 1910.
7 Sá Cardoso, ob. cit., p. 26.
Capítulo V
1 Raul Brandão, ob. cit., p. 50.
2 ob. cit., p. 98.
3 Sousa Costa, ob. cit., p. 186.
4 Roma Neto, ob. cit., p. 71.
5 Ibidem.
6 Rocha Martins, ob. cit., p. 306.
7 David de Carvalho, Os Sindicatos Operários e a República Burguesa (1910 1926), Lisboa, 1977, p. 92.
8 António de Albuquerque, ob. cit., p. 82.
9 Roma Neto, ob. cit., p. 76.
10 António de Albuquerque, ob. cit., p. 86.
11 Maria Feio, Sidónio Pais através do Coração. Lisboa, 1921, p. 177.

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