CONTOS & CRÓNICAS – “Quarto de bonecas” – por Catarina Pereira

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Apoiei as pontas das varetas no chão e soltei-as de uma vez. Segurando os cabelos, respiração presa, estudei de perto a pilha disforme e colorida. Por cima, pelos lados. Eu ia perder, de novo. Mas ainda não havia desistido completamente quando a garota cruzou o quarto, largou meia dúzia de cds na estante, trocou a saia curta do colégio por uma bermuda jeans e saiu.

Um vento cheirando a sabonete demoliu o emaranhado das varetas.

Deixei o jogo, me levantei devagar, as pernas formigando de tanto tempo cruzadas. Os últimos raios de sol estouravam na moldura metálica da janela.

Fiquei, a cabeça para fora, olhando a noite apagar a nesga de mar e areia entre os prédios. A conversa na sala girando no mesmo assunto, a vida do interior, mais fácil, mais barata, reabrir a loja em Rio Preto, doce se vende em todo o lugar, menos no Rio, a cidade inteirinha de dieta.

Risos, até que enfim.

Duas fieiras de luzes amarelas se acenderam lá embaixo, meu pai tocou meu ombro, me levou pela mão até a mesa de jantar.

Comi bife e batatas fritas ouvindo os adultos repetirem vai ser bom para a Laura, a Laura vai gostar, a Laura isso, a Laura aquilo, como se eu não estivesse justo na frente deles. A garota me atravessava com olhos vazados de tão claros, sempre assim desde que nossos pais nos apresentaram, dois ou três anos antes. Olhar fixo, poucas palavras. Então eu disse num sussurro, não quero ir, quero ficar no Rio, e senti minha mãe me chutar a canela de leve, sob a mesa, adivinhei seus pensamentos, criança não tem querer, muito menos na casa dos outros.

O quarto, por mais que o examinasse desde o começo da tarde, não parecia familiar. De meu ali, só a mochila pink murcha num canto, o pega-varetas, a camisola, o último livro do Harry Potter. Minha maior relíquia. Se o abraçasse e fechasse os olhos, podia rever o professor de português, podia lembrar algumas de suas palavras. Podia, melhor que tudo, sentir o coração disparado, os lábios roçando a bochecha áspera. Me lembrava também da zoação dos colegas, é claro. Tremendo mico tirar as melhores notas da turma, ganhar prêmio e ainda beijar o professor.

Mas quem ligava?

Guardei o livro com raiva. Nunca mais veria o professor, nunca mais veria as amigas. Fechei a mochila. Odiava pensar nisso.

Ao ver a garota plantada no vão da porta, recolhi as varetas, troquei de roupa e me deitei em segundos, no colchão meio espremido entre a parede e a cama. Fechei os olhos. Tinha um pouco de medo dela, sabia lá por quê. Talvez o jeito, desengonçado na magreza comprida, branca e ruiva demais.

Eu não gostava mais de vermelho. Via-o nos olhos injetados da minha mãe, todas as manhãs.

No rosto do meu pai, nas mãos dele, quando socava as paredes praguejando contra governo, impostos. Via-o até no alarme das explicações, fechar a loja, mudar tudo, cidade, escola, você tem que ajudar, já está crescida.

Ouvi o abrir e fechar das portas do armário, senti as luzes se apagarem e o movimentar dos lençóis ao meu lado.

Eu já estava crescida. Bem no meio da confusão meu corpo entrou em polvorosa, os seios inchavam sob a pele, a penugem que eu mal podia ver contra a luz se espessava aqui e ali, os quadris estufavam os shorts, o rosto pipocava espinhas, a mancha vermelha e nojenta sujava a calcinha todos os meses. Tudo isso, para quê?

Meu corpo se preparava para ter filhos, dizia minha mãe. Filho se fazia com os meninos, dizíamos eu e minhas amigas nas rodinhas do recreio. Mas os meninos deviam ser mantidos a uma distância segura, por enquanto, diziam todos os adultos em uníssono, as ordens martelando nossas cabeças. Nada de ficar sozinha com eles, nada de sentar de pernas abertas, nada de agarramento.

Não que eu ligasse para os meninos. Minhas divagações românticas estavam focadas no sorriso e na voz macia do professor. Mas não ia abandonar meus amigos só porque eles eram criaturas brutas e meio abusadas.

De repente percebi que não queria crescer coisa nenhuma. Que não queria saber nada do mundo dos adultos.

E me derreti em choro, no princípio disfarçado por arremedos de tosse e espirros, o nariz escorrendo, depois descontrolado e soluçante, a cara enfiada no tra- vesseiro.

De repente percebi que crescer era só tomar cons-ciência das perdas.

O perfume de sabonete pairou bem perto da minha cabeça. Os cabelos roçaram minhas costas.

Achei que ela ia me bater, parei de chorar, me encolhi junto à parede. Mas não conseguia evitar os soluços.

Ela puxou meu ombro, delicada. Enxugou meus olhos com o lençol, carinhou meu rosto com as pontas dos dedos. O vozerio da sala e um feixe de luz suave invadiam o quarto por uma fresta de porta. Um boa noite meninas, ussurrado pela abertura estreita, fez meus olhos se fecharem num impulso e sua mão se recolher sobre a cama, como se tivesse molas. Minha mãe não teve resposta e voltou para a sua despedida barulhenta.

Recomecei a imaginar como seria minha vida longe do Rio, decidida a me fingir de férias, a escrever para as amigas todos os dias e, principalmente, a voltar em dois ou três anos, depois de ter estudado toda a gramática e de ter lido todos os livros do mundo, para namorar o professor de português.

Passeava abraçada a ele pelas pedras do Arpoador, o vento esfumando as ondas e desalinhando os cachos loiros, quando senti novamente o toque no ombro.

Eu já havia parado de chorar, o que mais ela queria?

Os dedos, longos e finos como patas de aranha, subiam a barra da minha camisola, já amarfanhada até a cintura. A concha da mão envolveu meu seio miúdo, apertou o mamilo. Eu precisava respirar, mas não podia mexer o peito. Por pouco não sufoquei antes dela esticar o braço e me beliscar de leve a barriga. Em seguida, os dedos desceram. Passaram pelo quadril, por dentro da calcinha. Tatearam. Eu estava paralisada. Sabia muito bem que aquele era um lugar proibido.

Minha intimidade, minha vergonha. Eu era uma mocinha, tinha que me dar ao respeito. Mas ela também era menina. Talvez entre nós fosse permitido. Não encontrava essa informação em nenhum canto da memória.

E não poderia perguntar a ninguém, naquele momento. Tinha que me comportar, estava na casa dos outros. Devagar, eu cedia ao vaivém ritmado entre as minhas pernas, as vozes na sala, cada vez mais longe, nossas respirações, cada vez mais rápidas.

Então, quase contra a minha vontade, meu corpo se estirou no ar, o colchão desapareceu.

Me transformei numa estrela cadente e o espectro risonho do professor flutuou comigo no espaço.

Evitei os olhos dos adultos, à mesa do café. Sentia o rosto quente, o corpo amolecido. Minha mãe me pôs as costas da mão na testa. Respirou fundo. Não, eu não tinha febre. Devia ser a excitação da mudança. Tomei um pouco de nescau em goles pequenos, o estômago revoltado.

Meu pai e o amigo carregaram as malas para a garagem.

A garota surgiu, cabelos úmidos, uniforme, o rastro de sabonete espalhado pela casa.

Murmurou bom dia, sentou-se ao meu lado. Recusei a fatia de bolo que a dona da casa me oferecia. Ela o embrulhou e me entregou. Eu comeria depois, no carro.

Fingi arrumar a mochila no colo. De dentro dela, Harry Potter me estendia a mão olhando para o nada.

A garota cortou ao meio um pão francês. Tirou os miolos, encheu as canoas de pão com mel, colocou uma das metades na minha mão. Bebeu o suco de laranja, pegou a outra metade do pão e saiu, pingando mel na língua, sem se despedir.

Minha mãe e a mãe dela sorriram. Crescem depressa, as meninas.

Dei um meio sorriso. Eu não tinha certeza de estar mesmo crescida. Comi meu pão em silêncio. Precisava de energia. Querendo ou não, tinha uma viagem de vida toda pela frente.

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