EDITORIAL: QUAL ESQUERDA?

Imagem2Como salientava há dias atrás Carlos Mesquita,  no seu ClariNet, segundo as sondagens mais recentes, as intenções de voto na esquerda baixaram de Janeiro para Fevereiro, embora mantendo-se a “maioria de esquerda” relativamente à coligação governamental. Quando dizemos esquerda referimo-nos ao PS, ao PCP e ao BE. Mas será que o PS pode ser considerado “esquerda”? (nem colocamos a questão relativamente às estratégias do PCP e do BE – mas, já agora, será que são consequentes?).

O problema  central é o de se dar como assente de que fora do sistema de representação partidária não existe vida.  Forjou-se um cárcere conceptual, um bloqueio que não nos deixa raciocinar fora dos parâmetros que o «jogo democrático» define e consente. Uma forma estruturante do raciocínio comparável ao da escolástica que tornava indissociáveis a e a razão. Há mais de vinte anos, numa nota de abertura de um número da revista Finisterra, Eduardo Lourenço, com límpida simplicidade, dizia: «Enquanto o tecido democrático assentar quase exclusivamente nos mecanismos de representação partidária, enquanto esse sistema não for contrabalançado por outras formas de representação social, a de associações, grupos, clubes de reflexão, ou outras formas de expressão activa da sociedade civil, o reino da «partidocracia», mais ou menos nocivo, é inevitável:» (…) «O único remédio contra uma certa e inevitável «partidocracia» é a democratização em profundidade da sociedade civil, a subida do nível de autonomia individual, a delegação cada vez mais consciente da nossa parcela de poder e do seu controlo. A Democracia é um círculo vicioso quando o cidadão abdica por simples rito a sua responsabilidade nas mãos alheias para que elas exprimam, reforcem vida à mesma Democracia. No fundo o que é a «partidocracia» senão a quintessência dessa abdicação?».

E aqui bate o ponto. Mais do que culpar os partidos e os políticos, devíamos culpar-nos a nós que entregamos de mão-beijada a defesa dos nossos interesses a quem tem interesses diferentes e obedece a poderes que usam o tal «jogo democrático» como antídoto contra a democracia.

Os cidadãos abdicaram do exercício dos seus direitos. Exercê-los, implica um esforço que não estão dispostos a fazer. Encarregam os políticos desse trabalho cansativo. E eles fazem-se pagar bem.

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