APELO À REBELIÃO DAS MASSAS CONTRA A DITADURA DOS AEROPORTOS – por CARLA ROMUALDO

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Haverá alguma razão aceitável, compreensível, razoável para que o cidadão comum seja tão maltratado nas suas viagens aéreas? Para que lhe dêem ordens com maus modos, para que o obriguem a despir peças de roupa ou a descalçar-se, para que o mandem parar ou avançar como se fosse um recruta em plena inspecção? Haverá, pergunto, algum outro prestador de serviços que cobrando, e frequentemente não pouco, por esses serviços que presta, possa dar-se ao luxo de tratar os clientes com semelhante desrespeito e sobranceria?

Em que outro lugar, que não um aeroporto, há semelhante aglutinação de funcionários mal-encarados? Em que outro lugar nos é imposto que caminhemos por corredores semelhantes aos que são destinados ao exercício físico dos hamsters, percorrendo a fila em ziguezague, enquanto somos vigiados por seguranças de cara fechada prontos a gritar-nos se não fazemos o circuito com a rapidez e correcção que se espera de nós? Onde mais somos obrigados a despir casacos e camisolas, a remover cintos, anéis, óculos, sapatos, a ser revistados em frente a dezenas de pessoas, só porque algum obscuro componente das roupas que nos sobram insiste em fazer o detector de metais disparar? Haverá no mundo criaturas mais antipáticas, mais prepotentes, do que aquelas que revistam os passageiros nos aeroportos? E para quê tanto escrúpulo? Por acaso algum terrorista da Al-Queda se lembrou de esconder explosivos na fivela do cinto? Já ouviram algum caso em que um avião tivesse sido desviado com recurso a um par de sapatos, como os que me fez descalçar uma insolente inspectora com tom de voz e gestos de quem passa as noites a cantar o “Deutschland über alles”?

Quem mais se atreveria a chamar um passageiro com maus modos por ter descoberto uma garrafinha de água na sua bagagem de mão?

– TEM RECEITA MÉDICA PARA ESTA GARRAFA?

– nã… não, é só para matar a sede…

– NÃO PODE!

Em que outro lugar poderia vigorar um plano organizativo no qual se conduzem os passageiros através da porta de embarque para os fazer alinhar durante longos minutos na pista de aterragem, de pé, expostos a um frio glaciar, à espera que senhoritas avinagradas ou matulões de colete fluorescente por fim lhes façam o sinal tão ansiado que lhes permitirá atravessar a passadeira e encaminhar-se para o avião onde, com um pouco de sorte, encontrarão o primeiro rosto sorridente do dia? A não ser, claro está, que estejam a viajar com a Ibéria. Nesse caso, percam todas as esperanças, a Ibéria jamais contrata pessoas simpáticas.

Nas viagens aéreas, o passageiro é o elo mais fraco e os funcionários, talvez procurando ainda alimentar esse glamour que já ficou para trás há muito, comportam-se como detentores da capacidade de nos conceder ou recusar um privilégio. E a maioria de nós passa por tudo isto com a máxima resignação, talvez porque ainda subsista, nalgum recanto obscuro das nossas mentes, um atávico respeito por fardas de botões brilhantes, e um irracional temor de que, vistas através de potentíssimos scanners, as nossas inofensivas bagagens possam revelar segredos de que nem suspeitávamos, que nos possamos de repente ver metidos no meio de um imbróglio hitchcockiano, uma intriga internacional de crime e espionagem, acusados de um crime que nunca nos é explicado, num país estranho e cujo idioma não dominamos.

Só uma culpa irracional ou um temor vago, mas nem por isso menos petrificante, nos poderiam fazer suportar a experiência traumática das viagens aéreas sem protestar. É certo que os protestos de pouco valem. Um funcionário da Ibéria (sim, tenho os meus problemas com ela) com quem barafustei certo dia respondeu-me que a culpa não era dele, era da companhia, o que era inegável mas nem por isso resolvia alguma coisa. Num certo aeroporto cujo nome prefiro não dizer para não preconceituosa que sou preconceituosa (está bem, pronto, era Barajas), vi um funcionário gritar a um passageiro que atravessasse imediatamente o detector de metais, apesar do homem levar dez minutos dizendo-lhe que tinha um pacemaker e não podia fazê-lo. Quando se explicou à besta enraivecida o que se passava, olhou com ódio para todos e pareceu-me que ia correr-nos à bastonada, e estou certa de que foi mesmo isso que lhe passou pela cabeça.

Num aeroporto todos somos terroristas em potência, todos somos insignificantes – à excepção dos que têm direito à sala VIP – todos obedecemos com maior ou menor resignação àquilo que nos é imposto. Todos somos formigas em trânsito, formigas suspeitas, formigas cujo ar inofensivo não deve ser subestimado, formigas que devem ser intimidadas e disciplinadas, escrutinadas e descalçadas. E quanto mais proteste a formiga, mais suspeito o seu comportamento. Como nas ditaduras, tal e qual.

2 Comments

  1. Ah! Carla, não é só nos aeroportos! É na CP, na Transtejo, na Carris, no Metro… Estamos tão habituados que já não ligamos. Aceitamos como se aceitam, sem questionar, as “voltas dos destino”… Ou não! Experimente reclar numa destas estações, que não um aeroporto, e vai ouvir os mesmos argumentos. O mesmo arrazoado. Sae o que os desarma? – É perguntar-lhes porquê? lol

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