“Abóboras no Telhado” de Aquilino Ribeiro – por Manuela Degerine

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Encontrei-o num alfarrabista, o preço era insignificante, o título prometia ruralidade, tudo quanto o autor publicou me interessa… Comprei-o. Arrumei-o na estante. Passaram-se vários anos.

Há cerca de um mês senti uma falta de serras com neve e lobos, de… exatamente: abóboras no telhado. Fui buscar o escadote, desci com o livro na mão. Era um daqueles volumes cujas páginas tinham de ser cortadas, tarefa que antigamente antecedia o prazer da leitura; pareceu-me agora fastidiosa. E um livro com sessenta anos – nunca lido – é um objeto melancólico… Tranquilizou-me a nota: “3ª edição”. Venderam-se tantos exemplares, houve leitores de certeza, calculava eu, quando o olhar caiu no subtítulo: “Polémica e crítica”. As abóboras eram portanto de espécie metafórica, mas fui atraída por aquela voz que tão bem evoca as terras do demo como os boulevards parisienses, pelo seu sarcasmo, pela sua linguagem, pelo seu inconformismo… Aquilino Ribeiro na sociedade portuguesa do Estado Novo é um gigante numa gaiola.

O autor analisa peripécias da carreira (esboça, entre numerosas figuras, um belo retrato do editor Aillaud), ajusta contas com quem lhe plagiou textos, com quem escreveu isto ou aquilo por ter lido bem, por ter lido mal as suas obras… Ou até – como João Gaspar Simões – sem as ler. Faz balanços. E vai sempre pensando a literatura. Com humor. Com vocabulário. Com lucidez. Escrever… Para quê? Para quem? A princípio os editores sentenciavam:

– “O senhor não tem público” (p. 28).

– “Os livros de Aquilino não se vendem” (p. 41).

No entanto o segundo romance, “Via Sinuosa”, vendeu duas edições em poucos meses, fenómeno que, passados quarenta anos, o escritor atenua: “Nesse tempo imperava o gosto da leitura. O futebol não esvaziara os cascos do honesto cidadão nem tão-pouco as suas algibeiras” (pp. 45-46). O autor justifica a demora do trabalho (inspirado pela guerra) com a interrogação: “E escrever para quê numa terra que lê apenas as contas que traça o merceeiro?” (p. 167). Mais adiante avança esta afirmação provocadora: “Dentro de vinte anos não há mais literatura em Portugal. Não digo que não continuem a aparecer livros interessantes, mesmo superiores, mas de génese esporádica, mais ou menos eventual, como outrora os Lusíadas e as Peregrinações” (p. 293). Depois explica: “Hoje tudo é febril, tumultuário, dinâmico e muscular. Nas belas-letras tudo é remanso, pausa, meditação” (p. 296). E conclui: “A leitura que supõe umas horas de ócio, e sobretudo concentração de consciência, não tem atmosfera propícia. A rádio, a gazeta, o cinema satisfazem as restantes e normais necessidades de bestunto” (297). Passaram-se entretanto sessenta anos mas o diagnóstico continua válido; embora o ritmo fosse retardado pela escolaridade obrigatória. Acrescentámos monstros cronófagos à lista, a televisão, o Facebook, os engarrafamentos, o Serviço Nacional de Saúde, as cabeças esvaziam-se cada vez mais e surgiram outros modos de vida, outros modos de leitura, outros suportes, outros circuitos, contudo sessenta anos após a publicação de “Abóboras no Telhado” alguém cortou as páginas do livro, leu-o… há-de ainda relê-lo. Os meandros da literatura são afinal mais complexos do que os escritores – mesmo gigantes – ousam esperar.

1 Comment

  1. Ah! Aquilino Ribeiro. Morreu um mês depois que eu nasci. Fantástico homem e escritor. Merecia o Prémio Nobel, disso não tenho dúvidas. Quem me dera que a leitura das suas obras integrasse os programas de português neste país de gente sem memória, sem critério.

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