EDITORIAL – Indignação e revolta? Ou Revolução?

Imagem2Numa entrevista há dias concedida ao jornal  brasileiro O Globo, José Mujica, presidente da República do Uruguai, pôs em causa a eficácia dos  movimentos de protesto, tais como a Primavera Árabe ou como os que, no Brasil, contestam o que se vai gastar com o Campeonato Mundial de Futebol. Simpatizo com os protestos, mas não levam a lado nenhum,  disse.

Derrubaram governos, reconheceu, «mas não construíram nada. Para construir, é preciso criar uma mente política, colectiva, de longo prazo, com ideias, disciplina, e com método. As sociedades não mudam por causa de grandes homens, mudam quando os protestos se organizam, têm disciplina e métodos de longo prazo. Temos de revalorizar o papel da política. Estes movimentos de protesto têm a vantagem do novo, e tentam alguma coisa nova porque desconfiam do velho, especialmente dos partidos, porque perderam a confiança neles. Mas as Primaveras têm-se transformado em Inverno porque não sabem aonde ir».

Na sequência do 25 de Abril de 1974, as manifestações foram a forma pela qual se procurava influenciar a condução da política. Como procissões pedindo aos deuses que interrompam os períodos de seca, o povo pedia aos políticos que governassem de acordo com o que as palavras de ordem sintetizavam. Deuses e políticos são surdos a procissões e  manifestações. Nunca os partidos políticos que constituíam a chamada esquerda se puseram de acordo quanto à forma de organizar o poder – receitas chinesas, russas, jugoslavas, albanesas, cubanas… para confeccionar um prato nacional, com produtos nacionais e condicionantes específicas.

Mário Soares,  falando no decurso de uma cerimónia em que lhe foi outorgado o prémio de personalidade do ano de 2013 da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal, disse que a celebração do 40º aniversário da Revolução deve servir “para provar que o 25 de Abril não morreu, que os militares de abril não morreram e que foram quem salvou o país da primeira ditadura”. Desta vez, tem razão. Mas só se soubermos organizar e objectivar os protestos, e revalorizar o papel da política, como disse Pepe Mujica, só assim podemos derrotar o Inverno e dar as boas-vindas à Primavera.

2 Comments

  1. Carlos Loures, brihante observação, como sempre. Concordo plenamente, porém permita-me juntar à sua a minha voz e acrescentar que, as “Primaveras” redundam sempre em “Invernos” porque o novo poder que se instala tem apenas como ensejo substituir o poder que desinstalou, cometendo exactamente as mesmas atrocidades, recorrendo a um novo discurso, ou nem por isso, que é como quem diz, mudam-se as moscas…

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