EDITORIAL – Portugal e Luxemburgo

logo editorialNão gostamos de rankings, mas às vezes dá jeito recorrer a essas listas que estabelecem hierarquias (acabamos de ver o ranking da FIFA que situa a selecção portuguesa no 4º lugar mundial…). Sem nos adentrarmos em pormenores do foro da Economia, consultando uma lista de países por PIB nominal per capita, verificamos que, de acordo com essa informação, o Luxemburgo ocupa o primeiro lugar com um rendimento per capita de 113 533 dólares norte-americanos; Portugal  situa-se no 27º posto com 33 610. Acentuamos que desconhecemos se estes dados correspondem inteiramente à realidade – mas, ainda que desactualizados, ilustram o nosso objectivo que é o de salientar a diferença entre duas economias europeias – uma, a mais próspera do planeta; outra, uma das mais pobres da União Europeia.

 A visita do primeiro-ministro luxemburguês a Portugal, leva-nos a centrar a atenção no pequeno grão-ducado europeu onde recentemente um anúncio a pedir candidatos que falem português foi questionado no Parlamento do Luxemburgo por um partido nacionalista – um deputado perguntou ao ministro da Educação do Luxemburgo se «considerava normal» que uma associação subsidiada pelo Estado exigisse o conhecimento de uma língua que não faz parte dos idiomas oficiais do país, acusando-a de «favorecer» os falantes de língua portuguesa e de não contribuir para a integração dos estrangeiros. Para quem não saiba, ou não se recorde, lembramos que cerca de um quarto da população do Luxemburgo é constituída por portugueses; além dos imigrantes, há luso-descendentes integrados na comunidade luxemburguesa (até podendo ser encontrados no partido que contesta o anúncio).

O fenómeno da ingratidão de comunidades relativamente mais prósperas  para com trabalhadores que, vindos de fora, se ocupam de tarefas que os nacionais não querem para si, gente que contribui para a criação de fortunas e para o robustecimento de Economias, é recorrente – em finais do século XIX os galegos nas maiores cidades portuguesas transportando água ou fazendo mudanças, aguadeiros e moços de fretes, gerando uma onda de adjectivos depreciativos, como «galegada» (má-criação) ou «galego», na acepção de escravo, criado… Entretanto portugueses filhos de galegos brilhavam como diamantes – José Rodrigues Miguéis, para referirmos um caso – não acarretava pianos nem vendia água… O caso dos portugueses no Brasil também é elucidativo  – profissão tradicional, padeiros e quanto ao QI – o carimbo de «português é burro». Nem nos damos ao trabalho de escolher um grande brasileiro, filho ou neto de portugueses que tenha ido além da indústria de panificação e que já não zurre, com os pais e os avós…

No Luxemburgo, o país mais rico do mundo, há três idiomas oficiais – o francês, o alemão e o luxemburguês. A língua portuguesa, não sendo oficial, é talvez a mais falada – é impossível ir ao grão-ducado e não ouvir falar português. E é universalmente mais importante do que qualquer dos idiomas oficiais. Sabemos que os números, não são tudo e que os luxemburgueses fazem bem em preservar tradições e o seu modesto, insignificante, nicho linguístico. Os números não são tudo e as estatísticas sobre a riqueza dos países também não. Portugal, com o seu posicionamento no ranking do rendimento per capita, tem uma História, uma língua e uma cultura apreciáveis.

Se o Luxemburgo pedisse com bons modos, até poderíamos meter uma cunha para que o país mais rico do mundo fosse admitido na CPLP…

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