O INVOLUNTÁRIO MENSAGEIRO – por ANTÓNIO SALES

Imagem1
Parte III
(conclusão)

            Neste caldo de tragédias os mortos passaram a habitar comigo, revolteando em meu redor, fazendo-me denguices, tocando-me com os dedos peçonhentos, grudando-se às paredes do cérebro como corruptos emissários do terror.

            Esta luta macabra interrompia-me o sono e povoava-me os abismos da razão de sentimentos menos afectivos para com o meu amigo. Afastei de mim o seu retrato onde se pintava uma tranquila e paciente presença reconfortada por uma certa quietude. Atirei-me à criação de uma figura nova com destacados incisivos de vampiro e as labaredas do sangue fresco a crepitarem no interior das pupilas. Demorou dias, semanas, meses, este exasperante estado que erguia catedrais de esquifes. Uma sexta-feira, porém, foi ainda o Pires que me veio libertar das hediondas visões da carne putrefacta. Descia eu a Avenida da Liberdade e, chegado ao Rossio,, acantonei-me a uma mesa do Nicola com o jornal da tarde.  Corri as gordas, detive-me na crítica de cinema do Lauro António, dei a minha atenção aos quadradinhos dos “Peanuts” e do “Tio Carlos” quando, de repente, ao voltar da página,  batem-me os olhos numa pequena fotografia do Pires. Surpresa! Inegavelmente era ele, Alvarinho Sebastião Pires de seu nome completo, o sorriso parolo com que ficamos nas fotografias de passe. A notícia concedia o espaço indispensável sobre um automóvel, transformado num monte de sucata, que marrara contra um muro na marginal de Cascais. Fora de madrugada em Paço d’Arcos. Vinha com um amigo. O carro despistou-se. O motorista salvou-se, mas ele era cadáver quando chegou ao hospital.

            Naquela noite o sono voou. Recordava-me do Pires alinhando com indiferença as pedras do dominó, muito hirto, muito sério, muito senhor do seu papel. Crescia do tempo-cinza em mangas de camisa à porta do Salsinha, na esperança do freguês que lhe ocupasse a tarde e lhe sacudisse o torpor das pálpebras. No biombo das sombras eram companheiros o Guedes, o Pessanha e a Rosalina com os peitos brancos a espreitarem de entre o tojo quando a amávamos à vez na serra dos Cucos. A Estrada de Benfica era ontem, um ontem vivo e persistente nas duas malas gordas que em vez de trapos e bugigangas transportavam pedaços de corpos esquartejados. O Pires dominava o meu sono com um sorriso escarninho; guardava a entrada do purgatório e puxava-me para as profundezas das chamas onde se agitavam corpos em apavorante promiscuidade. Lá estavam o Medeiros e o Farroncas gaseados e disformes. «Só o Berto Maltês teve direito ao paraíso por ter sido corno em vida», gargalhava o Pires agigantado pelos espectros do fogo e procurando-me com as nãos esqueléticas e de unhas longas e recurvas.

            Tentei, num esforço enorme, saltar fisicamente do sono, mas o espírito desobedeceu-me. Comandava-o o Pires de uma prateleira do necrotério, o corpo esventrado e enrodilhado, pronto a apodrecer e desfazer-se nos fundos pegajosos. Tinha o rosto apavorado, os maxilares estoirados e, no peito, uma caverna de sangue coagulado. Estava humilhantemente nu. Alguém lhe cerrara as pálpebras para evitar que os olhos contemplassem o degradante espectáculo da morte.

            Às sete da manhã encontrava-me exausto. Transpirava. Sentia nas têmporas uma pressão dolorosa de tenazes. Saltei da cama com um mau humor desgraçado. A rua era o analgésico para toda aquela embrulhada de defuntos em que o Pires me havia metido. Vadiei. Tomei café na Brazileira, desci ao Terreiro o Paço a ver os barcos de viagens curtas e sonhos largos. Subi a Rua Augusta, espeq uei-me entre os papalvos que fazem sala no passeio frente à pastelaria Suiça, e assim me entretinha descuidadamente quando o meu nome ziguezagueou por entre os ociosos das onze. Caramba! O Melo! Vinha mesmo a calhar o Melo! A abrir-me os braços e a afastar-me da neura. Perdera-o de vista desde que fora para Espinho cuidar das coisas do sogro. Gordo! Nem parecia o mesmo. Desbocado como sempre e alegre, de uma alegria contagiante. Três filhos e uma situação de estalo! Sentámo-nos na esplanada, palavra ida palavra vinda. Soltavam-se recordações. Mais isto e mais aquilo, mais pr’aqui e mais pr’ali, palavra puxa palavra e ideia puxa ideia pois conversa é isso mesmo, como as cerejas.

            «Oh, Melo, tu conhecias o Pires? O empregado do Salsinha que se refinava por jogar o dominó?» «Não me recordo eu de outra coisa. Um tipo catita! Veio para Lisboa. Nunca mais soube nada dele».

            «Pois morreu ontem num desastre de automóvel…»

            Disse, mas logo emudeci apavorado com o meu papel. As palavras não me pertenciam. O espírito do outro falava pela minha boca.

            «Eh, pá! Estás-te a sentir mal? – perguntou o Melo – Estás branco! Queres um copo de água?»

            Nã, não te incomodes! É o fígado, às vezes tenho estas cólicas.» – respondi embaraçado.

Algueirão

Março 1968

______

Para ler a Parte II deste conto de António Sales, publicada ontem em A Viagem dos ArgonautasUm Café na Internet, vá a:

O INVOLUNTÁRIO MENSAGEIRO – por ANTÓNIO SALES

Leave a Reply