O INVOLUNTÁRIO MENSAGEIRO – por ANTÓNIO SALES

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         Parte II

            Meditando nestas voltas e contravoltas da vida comprei o jornal junto à estação do Rossio na esperança de que a notícia fosse um engano. Mas qual quê, ela ali estava igualzinha à que me dera dois meses atrás a propósito do Farroncas. O retrato do Medeiros, mais novo um bom par de anos, a cruz sobre a cabeça: mulher, filhos, netos e mais família… foi Deus servido chamar à sua divina presença… o funeral sai da Igreja da Graça para o cemitério da vila.

            Tudo certinho, igual nas vírgulas sem tirar nem pôr!

            E esta, hein! Não querem lá ver! Cruzo-me com o Pires ao Arco do Cego (o mesmo fato castanho amêndoa, coçado pelo uso, e as mesmas malas pesadas e barrigudas), abre-me a boca num sorriso até aos lóbulos das orelhas, atira-me os braços às costas e, cravando um cigarro, anuncia-me:

            «Então o Medeiros lá se foi, hem!»

            «O Medeiros? Ó Pires, não pode ser! Estive em Torres há oito dias e vi-o na esplanada do Avenida rijo como um pêro».

            «É como te digo, pá! Morreu do coração, de repente. Tinha setenta e nove. Acabou-se uma dinastia do comércio da vila».

         De facto, com o Medeiros enterrava-se uma época de casmurrice em que a tradição prevalecera como feroz forma de luta  contra as inovações.

         «No meu tempo não existiam cinemas, nem cafés, nem férias, nem horários. Era pegar e lavrar. O trabalho não admitia fidalgos!» – Costumava dizer o Medeiros quando alguém pretendia demonstrar-lhe que os tempos eram outros pois o passado morre com o presente e este com o futuro.

              Baixo e redondo, de um redondo que nada tinha a ver com o flácido, arremeteu na vila nos alvores da República. Empregou-se no balcão, economizou, negociou, furou e no dia que o herdeiro do trono austro-húngaro foi assassinado em Serajevo abriu casa por sua conta e risco.

            Pegava-se, então, pelas oito da manhã. Trazia-se a mercadoria para a porta e ficava-se a atender os fregueses até às nove ou dez horas da noite. Os empregados tinham óculos pequeninos sobre narizes estreitos que equilibravam com olhinhos mirrados. Os estabelecimentos eram escuros e húmidos. As senhoras eram as vossências ou as madamas desdobradas em leques e salamaleques. Sentavam-se num banquinho, junto ao balcão, a ver os artigos e a perscrutarem com incontida curiosidade e bastante maledicência o noticiário mundano. A fazenda era apresentada com cuidado e languidez. Três, quatro clientes, preenchiam uma tarde. Acontecia certa educação que transformava a hora das compras num encantador passatempo para a burguesia feminina, ociosa e imbecil.

           Dentro deste esquema o Medeiros impôs-se como homem de trabalho e de respeito. Conquistou a praça com a reputação de uma abastança que se esforçava por esconder mas que todos sabiam ir crescendo de ano para ano. E quando casou em 1919, por altura dos tratados de Versalhes, era já um bom partido.

            Embora dono de uma das maiores fortunas da terra conservara-se fiel à boa disciplina do marçano. Discutia todos os tostões, chorava todas as despesas; mostrava-se mesquinho às mais timoratas exigências dos filhos. A mulher aturou-lhe as caturrices com a humildade que manda a santa madre igreja e os empregados as intransigências disciplinares. Ele abusou daquele seu jeito de cabeça dura que deu peso à sua palavra entra os homens grados da vila. Hoje seria um reaccionário mas naquele tempo era apenas uma besta cuja obtusidade de caco lhe abriu as portas da presidência do Grémio local.

            O Medeiros, porém, não era eterno. Embora resistindo, resistindo a tudo com uma pertinácia invulgar, deu-se de costas sem ai nem ui. Chorava-o uma família larga e um grupo de velhos pressagiando o voo do abutre a pairar sobre as cabeças e as pernas trôpegas. Não ia envolvido em notas para o fundo viscoso da terra, mas deixava aos herdeiros as armas suficientes para se digladiarem e odiarem numa guerra de gerações.

            Após este acidente pitoresco o Pires emigrou da minha vida. Deixei de meditar nas coincidências que haviam transformado um inofensivo amigo num jovial arauto da morte. Triturados pela charneira da engrenagem citadina descruzámo-nos nos caminhos e voltámos às recordações esporádicas. O Pires sumia-se aos poucos sem outra glória que não fosse a curiosidade das situações relatadas.

            Todavia, numa hora matutina de um Julho que prometia rebentar os colarinhos das camisas, o Pires ressuscita-se em frente ao cinema Éden, de costas numa paragem de autocarro, as duas inseparáveis malas em repouso, no chão.

            Carago! Senti as costelas a comprimirem-se no esterno, os pulmões sôfregos de ar. A recordação do Farroncas e do Medeiros reflectiam-se num aviso pelo que retrocedi passos disposto a contornar a praça pelo lado dos correios de modo a desviar-me do avejão. Apercebi-me, porém, como era imprópria esta atitude.. As circunstâncias anteriores significavam apenas acasos do destino. O Pires não era alma do outro mundo para que me furtasse ao seu encontro. Indignado com a minha fraqueza momentânea retrocedi disposto a ferrar-lhe uma valentíssima e inesperada palmada nas costas.

            Voltou-se, sobressaltado como canídeo a quem puxam o rabo, e ao dar comigo atirou-me a gargalhada expansiva que traduz alegria por encontrar um amigo e saber que ele está vivo. E por estar vivo, inquire o Pires a rir como se fizesse a mais inocente pergunta deste mundo:

            «Eh, pá! Conhecias o Berto Maltês? Sim, o Dagoberto, aquele que se encheu de caroço com o Torriense na primeira divisão?»

           Fiquei petrificado. O Pires agigantava-se, grotesco, apalhaçado no riso corcunda que coloria cada sílaba da conversa com enorme sensação de êxtase.

            «Tem paciência… Tu não me digas que o Berto…».

            Nem me deixou concluir a frase. «É verdade, pá! Um desastre de automóvel. O tipo andava sempre com o prego a fundo! Um acelera daqueles viria, mais cedo ou mais tarde, a marrar com qualquer coisa».

            «Chiça! Cada vez que te encontro matas alguém. Como raio andas a par dessas macabras novidades?»

            «Cuidado, não mato ninguém…, mas leio o jornal. A necrologia todos os dias. Faz parte da minha vida comercial ver se algum dos meus clientes foi pró maneta ».

            A experiência dizia-me ser desnecessário procurar a confirmação pois nestas coisas de cadáveres o Pires falava como o oráculo de Tebas. Tornava-se impossível ressuscitar o Berto, passeando ao volante dos seus carros garridos que o representavam um dos mais curiosos casos de oportunismo urbano.

            Dagoberto Valdemar Maltês nunca gostou do seu nome o qual, diga-se, estava longe de ser esteticamente bonito ou com poder romântico capaz de exaltar a imaginação feminina, ou ainda foneticamente imperativo de modo a sugerir uma personalidade forte de que, aliás, era destituído. Nada disto era subjacente à natureza daquelas oito letras que até poderiam constituir um nome enquadrado na tradição onomástica nacional, mas nem isso. É todo ele uma desgraça, lamentava-se Adalberto,  um daqueles nomes a arrastar pela vida fora como se fosse vesgo, coxo ou marreco. Na esperança de atenuar-lhe o desgosto procurava demonstrar-lhe a personalidade do nome em termos fonéticos: Da-go-ber-to, sonante e invulgar qualidades apreciáveis para memorização sobretudo para uma carreira artística ou política. «Porra! Nem para trabalhar na construção civil serve, é esquisito demais». O caso arrastou-se imenso tempo até decidir que a sua “celebridade” futura assentaria no diminutivo pelo que passou a ser apenas tratado por Berto – Berto Maltês – e como tal assim ficou para todo o sempre enfeudado à vulgaridade.

            Berto nascera no dia 32 de Abril, como acentuava dizer, pois gostava mais desse mês que do Maio, o verdadeiro, com data marcada no dia dois para viver. Esta mania acompanhou-o toda a vida pelo facto de o fim de Abril representar o meio da Primavera, ou seja, quando as raízes das árvores e de todas as plantas estão firmemente agarradas ao solo e «eu gosto de sentir o solo sob os meus pés porque me transmite a sensação de resistência condição indispensável para projectar s vida e as ambições».

            Dotado de forte imaginação, tinha manias. Havia nele uma alegria natural, surpreendente habilidade manual , curiosidade manifesta e um um raciocínio rápido capaz de despachar dois ou três assuntos ao mesmo tempo. Tirou o curso comercial e empregou-se numa agência bancária local a fim de deixar de ouvir o pai acusá-lo de andar na galderice.. «Ganho algum. Que aquilo não é emprego para um gajo com juízo. Estar fechado numa loja a mexer em dinheiro e papeis a ver passar o cenário. Não é filme que cative a minha imaginação».  Acabou por abandonar o Banco.

            Berto saía de cena com a mesma fulgurância em que surgira na febre do futebol. Aventureiro e esperto aproveitou a euforia da população para se arvorar organizador de excursões a transportarem adeptos do clube de um extremo a outro do país. Chegou a despachar às quinze e às vinte camionetas cheias de fanáticos enfeitados de bandeirinhas.. Até então poucos o conheciam mas o apoio assim prestado à equipa conferiu-lhe popularidade e abriu-lhe o caminho para a medalha dos bons serviços prestados  ao concelho. Ganhou dinheiro, diziam muito dinheiro. Soube aproveitar a histeria colectiva mas também teve o mérito de avaliar a tempo a resistência dos jogadores e dos fundos do clube. Antes que o castelo viesse a terra tratou de montar a primeira agência de viagens.

            Lançou as crinas noutras direcções e os detractores afirmavam que ele emprestava dinheiro a juros elevados como se o juro em si, qualquer que seja a taxa, possa ser abençoado. Por mim, vi o Berto entrar pelo turismo pelos automóveis, pelos terrenos, pelos prédios, jamais como investidor mas como intermediário. Contudo, posso afirmar, a sua fonte de maior receita foi o contrabando e a de maior prosperidade a sorte. Não se trata aqui sa sorte ao jogo mas do jogo da vida onde a sorte interfere como factor decisivo. O Berto apostava na vida, desafiando-a. Arriscava-se em lances perigosos e ganhava.  Fora a sorte talvez que o projectara para os cumes da lua. Numa coisa, porém, tivera azar: fora corno.

            Ser corno não é desonra para ninguém. Vai longe o tempo em que tal condição era lavada com sangue, à ponta de espada ou a tiro de bacamarte. Um corno é como outro homem qualquer, pois se lhe escasseia a paixão mas sobra o senso procurará com equilíbrio encontrar a verdadeira origem dos factos. Nisso claudicou o Berto não lhe dando a esperteza para averiguar donde provinham tantas facilidades nos empreendimentos que fizeram correr muitas histórias, verdadeiras algumas, fantasiosas outras.

            Após mais este encontro que despertou a imaginação para o quadro dramático dos olhos langorosos da Elvirinha Maltês debulhados em lágrimas pelo falecimento do marido enquanto o corpo roliço fremia de ansiedades pelos prazeres doravante a desfrutar sem o receio da descoberta.

(continua)

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Para ler a Parte I deste conto de António Sales, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, Um Café na Internet, vá a:

O INVOLUNTÁRIO MENSAGEIRO – por ANTÓNIO SALES

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