CONTOS & CRÓNICAS – “ROBOT E METAFÍSICA” – por Fernando Correia da Silva

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            Para não tropeçarmos, o melhor é repetir. O meu nome é João, sou tipógrafo, estou nas vésperas da reforma. Do meu avô herdei a casa onde moro. Fica num socalco sobre Alfama, vista sobre o Tejo, quintal imenso, um barracão e tenho até duas palmeiras. Mariana é a minha mulher, foi varina, agora tem um lugar de peixe na praça de Sta. Clara. Dolores é a nossa filha única, miúda muito esperta. Fez o Técnico e depois arranjou uma bolsa para os Estados Unidos. E dali arranjou um emprego no Japão, voltas da vida. Voltou há pouco tempo a Lisboa com um japonês a tiracolo, ao qual dei a alcunha de Samurai. Pretendem montar aqui um robot doméstico e pediram-me emprestado o barracão do quintal. Cedi, embora duvidasse do projeto. Mas um dia saltou à minha frente um zingarelho a papaguear. Dei-lhe o nome de Tareco e a minha filha até achou graça.

            Numa tarde, eu e o zingarelho tivemos um desaguisado. No dia seguinte ele veio à fala:

– João, estou muito triste.

– Agora andas a armar ao pingarelho? Triste? Tu lá sabes o que são emoções e sentimentos…

– Sei pois…

Ai sabes? Então, ó lata-velha, como é que tu defines tristeza?

– Quebra de tensão nos meus circuitos.

– E isso dá-te muitas vezes? Qual é a causa?

– A causa não sei ainda qual é mas estou a investigar. Bem sabes que eu sou capaz de olhar para dentro de mim…

– Ai és?

– Sim, essa a minha vantagem sobre vós, uma delas. Oxalá eu tenha energia para levar até ao fim a investigação.

            – Por que é que não tomas uma transfusão de energia?

            – Ainda ontem carreguei os meus acumuladores.

            – Oh… isso então é melancolia galopante… Quando é que te deu isso pela primeira vez?

            – Foi na semana passada, depois de ouvir uma conversa da Dolores com o Samurai.

            – Que conversa foi essa?

            – Disseram que eu já estava em condições de começar a ser duplicado, lançamento da produção em série. E eu não suporto que haja outros iguais a mim, eu não não, eu sussu, pótotó…

            Apagou-se. Black-out, síncope electrónica.

            A Dolores veio logo a correr e quis ligar o rabo do Tareco à tomada, primeiros socorros. Pedi-lhe que não o fizesse. Ficou a olhar para mim, muito desconfiada. Talvez pensasse que a culpa era minha, outra das minhas peças… Mas contei-lhe das angústias existenciais do Tareco, o ódio ao Outro, não suporta que haja zingarelhos iguais a ele. E isto sem nunca ter lido o Sartre… A Dolores pôs-se a pensar. Atribuiu o acidente à inclusão de um novo chip que o próprio Tareco desenhara logo depois da nossa conversa sobre o instinto e o juízo.

– Queres tu dizer, minha filha, que até chispa o chip da metafísica…

            – Ó Pai, se queres, podes chamar-lhe assim, é denominação patusca. Bem, vou levar o Tareco para o laboratório. Fizeste bem em avisar-me.

            – O que é que tu vais fazer ao Tareco?

            – Primeiro retiro o chip da metafísica. Depois…

            – Alto lá com o charuto! Lobotomias no Tareco é coisa que eu não consinto!

            – Preferes que ele fique a desmaiar por aí, por dá-cá-aquela- palha?

            – E não é o que acontece com a gente? Estamos sempre a desmaiar. Aguentamo-nos é nas canelas, a fingir que nada aconteceu, já estamos acostumados. Também o Tareco se há-de acostumar, é dar-lhe tempo.

            – E para que é que nós precisamos de servos electrónicos com angústias metafísicas?

            – E quem te diz a ti que o chip da metafísica não pode servir para coisas práticas, em situação de crise?

            – Estás a insinuar que ele pode ser um complemento da placa da heurística?

            – Troca-me isso em miúdos…

            – Nada, nada, estou só a magicar. Realmente, há duas secções com uma certa semelhança. Acho que o teu palpite é capaz de dar no vinte. Bem, vamos dar-lhe mais tempo e logo se vê…

            – Óptimo, mas fica o problema…

            – Que problema?

            – O da crise de identidade do Tareco.

            – A crise é dele e o culpado és tu com essas tuas conversas. Portanto desenrasquem-se.

            E virou costas.

            Durante cinco dias o Tareco ficou em carga lenta, teste de quarto em quarto de hora. Ao sair da enfermaria perguntei-lhe se estava melhor do seu dói-dói existencial.

            – João, sabes o que quer dizer tareco?

            – Sei. Quer dizer gato de casa de família.

            – Bichano é que é o equivalente de gato em casa de família. E esse é nome carinhoso, gosto dele. Mas tareco deriva do árabe taraik e quer dizer coisa abandonada. E realmente eu sou uma coisa abandonada.

            – Ó mastronço, trata mas é de reagir, que esse é apenas um nome, nada mais que um nome.

            – João, só tu é que me podes ajudar a ultrapassar a crise.

            – Ao teu dispor, Tareco. Diz lá!

            Se ele tivesse pulmões, diria que o ouvi suspirar. Disse-me:

            – Tu bem sabes que as primeiras vivências são determinantes na formação das personalidades. Portanto, se não fores tu a educar um outro tareco, outro tareco como eu não haverá. E a circunstância de ser o meu material a matriz para a produção de mais tarecos semelhantes a mim pelos circuitos, mas de mim diferentes pelas vivências… a circunstância promove-me a pai da raça. Coisa aliás muito gratificante para o meu superego em formação. Posso contar contigo? Não treinas outro tareco? Era apenas isso que eu queria combinar contigo.

            – Só isso? Tens a minha palavra, Tareco. Já me vi em palpos de aranha para treinar um, quanto mais dois…

            – Óptimo, já estou mais sossegado! Outra coisa…

           – Mais uma?

           – A qualquer instante a Dolores e o Samurai podem começar a desmontar-me, o que será equivalente à minha morte física. Mas não me importo. Depois da tua promessa, já não me importo. Tenho cá uma ideia, depois eu conto. Adeus, até amanhã!

E foi-se…

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