“CEM ANOS DE ANARQUISMO” – ANTÓNIO JOSÉ FORTE – por António Cândido Franco

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Texto publicado em A Ideia (n.º 51-2, Maio, 1989), onde foi também dada à estampa a tradução da “Declaração Prévia” com que os surrealistas franceses iniciaram colaboração regular no jornal Le Libertaire (12-10-1951). No mesmo número há nota sobre o falecimento   de António José Forte, ocorrido em 15-12-1988, com 57 anos. O texto, que nos coloca  alguma dúvida de datação, foi escrito a propósito da exposição bibliográfica 100 Anos de  Anarquismo em Portugal , ocorrida em Outubro de 1987 na Biblioteca Nacional, com organização do Arquivo Histórico-Social, evocando a publicação do manifesto do grupo comunista-anarquista de Lisboa em Abril de 1887. O catálogo, além da descrição das espécies, quase todas do AHS, contou com textos de Maria Filomena Mónica e João Freire.

António Cândido Franco

Seria escandaloso que a palavra surrealista – palavra, entre todas, libertária – não se fizesse ouvir nestas comemorações, mesmo sem ter sido convidada. Mesmo se é uma voz, e uma só, a voz da palavra surrealista aqui – a minha, nem maior nem menor, porque é a minha voz. Mas conta-se com a generosidade do anfitrião.

De facto, o surrealismo, na figura do Poeta, o insurrecto por excelência, foi neste século a grande palavra libertária contra a cultura asfixiante e ao mesmo tempo a voz inaugural da cultura fascinante – da vida fascinante.

Para uma Cultura Fascinante é exactamente o título de um livro de um poeta português publicado em 1959. E dez anos antes outro poeta português afirmara: a Anarquia e a Poesia são uma obra de séculos e irrompe espontaneamente ou não  irrompe.

Outro poeta, também português, proclamava entretanto: enquanto um só homem, um só que seja, e ainda que seja o último, existir desfigurado, não haverá figura humana sobre a terra.

A poesia deve ser feita por todos, não por um ou a poesia é feita contra todos – que libertário ousará repudiar estas verdades libertárias sem negar a essência do anarquismo? São afirmações de dois poetas, um francês e o outro português. Duas bandeiras, e uma só e a mesma bandeira, vermelha e negra, ou só negra, ou só  vermelha. Da cor da liberdade, cor de homem, como cantou outro poeta. Tudo vozes de poetas, é verdade. Mas ouviram-nas ontem os anarquistas? Vão  ouvi-las hoje os libertários? Visionário, o poeta é também uma visão; através dele todos podem ver. Um esforço mais, anarquistas, se quereis ser bons libertários.

Hoje, aqui, como em toda a parte, a cultura asfixiante e os seus ministros, as suas  igrejas, os seus partidos, os seus sindicatos, os seus controleiros, exige, como outrora, como sempre, se não queremos ser vítimas ou cúmplices, se queremos ser revolucionários, que a voz da insurreição se faça ouvir. O Poeta – o insurrecto – tem a primeira e a última palavra dizer, e essa será definitiva.

Como dantes a prisão, a guilhotina, a forca ou o fuzilamento, também agora o silêncio e miséria, os campos de concentração e os hospitais psiquiátricos não poderão calar a voz da insurreição. Jamais! – disse o poeta.

Lisboa, 29 de Abril de 1988

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