Fez esta madrugada 40 anos. Fomos surpreendidos pela notícia de um golpe militar abortado. Para dizer toda a verdade, a surpresa não foi muito grande. Foi num sábado e o Jaime Camecelha, mulher e filhos, estavam em minha casa num bairro entre a Parede e São Pedro do Estoril, pois passávamos a maioria dos fins-de-semana juntos. A notícia fora dada logo pela manhã e ao longo do dia iam sendo emitidos comunicados do governo, das Forças Armadas, das forças de segurança. A surpresa não foi grande, mas a desilusão, sim.
Desde a iniciativa da Capela do Rato, na passagem do ano de 1972 para 1973, quando um grupo de católicos tomou posição contra a guerra colonial e contra a Ditadura, a actividade dos oposicionistas recrudescera e naqueles primeiros meses de 1974 as reuniões dos oposicionistas não eram já as reuniões sociais, com bolos caseiros, uísque de Sacavém e canções do Yves Montand ou do Zeca. Na reunião de Torres Vedras em 1973 em que se verificara a cisão do MDP-CDE, com a tendência PCP e a tendência mais á esquerda a separarem-se, havia a consciência de que era preciso desferir um golpe profundo no sistema fascistóide. Sem os «reformistas» entre nós, as questões cruciais eram colocadas sem que logo fôssemos acusados de «esquerdismo».
Um jornalista que, no quadro das suas funções, assistia às reuniões do MFA, e depois nos fazia o relato da evolução, trazia-nos informações sobre o rumo que as coisas estavam a tomar. Sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, a tropa sairia para a rua. Naquele sábado pela manhã, quando começámos a ouvir as notícias na rádio e na televisão, pensámos que era o “tal” movimento que andávamos a seguir há meses. A facilidade com que a tentativa foi neutralizada, causou uma grande desilusão. Só na reunião da semana seguinte ficámos tranquilos – o “tal” movimento não fora ainda desencadeado. O que se passara então no dia 16 de Março de 1974?
Numa das versões,terá sido uma tentativa de os seguidores do general Spínola assumirem o controlo do MFA, impedindo os capitães de o liderarem e evitando radicalismos com que não concordavam. Noutra teria sido uma manobra para afastar os spinolistas. Era consensual que na base da tentativa de golpe terá estado a exoneração dos generais Costa Gomes e António de Spínola, na sequência do episódio da “Brigada do Reumático». O capitão Virgílio Varela, do Regimento de Infantaria 5, das Caldas da Rainha, decidira que, caso a Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas não reagisse, sairia sozinho com a sua unidade. E na madrugada de 16 os capitães do RI5, tomaram o comando do Quartel e decidiram avançar sobre Lisboa, sob o comando do capitão Armando Ramos. Foram a única unidade a sair, numa acção descoordenada, na sequência da qual foram presos cerca de duzentos militares. Dias depois, na sua última Conversa em Família, Marcelo Caetano classificaria os acontecimentos das Caldas da Rainha como uma “irreflexão e talvez ingenuidade de alguns oficiais“. Dizia o comunicado oficial: “O Governo tinha já conhecimento de que se preparava um movimento de características e finalidades mal definidas, e fácil foi verificar que as tentativas realizadas por alguns elementos para sublevar outras unidades não tinham tido êxito. Para interceptar a marcha da coluna vinda das Caldas foram imediatamente colocadas à entrada de Lisboa forças de Artilharia 1, de Cavalaria 7 e da GNR. Ao chegar perto do local onde estas forças estavam dispostas e verificando que na cidade não tinha qualquer apoio, a coluna rebelde inverteu a marcha e regressou ao quartel das Caldas da Rainha, que foi imediatamente cercado por Unidades da Região Militar de Tomar». Após terem recebido a intimação para se entregarem, os oficiais insubordinados renderam-se sem resistência, tendo imediatamente o quartel sido ocupado pelas forças fiéis, e restabelecendo-se logo o comando legítimo. Reina a ordem em todo o País».
O professor e historiador Fernando Rosas, numa sessão realizada há anos nas Caldas da Rainha, lembrou que o movimento das Caldas se verificou na sequência da publicação do livro de Spínola, “Portugal e o Futuro”, que terá deixado Marcelo Caetano à beira da demissão e que o presidente do Conselho pretendeu entregar o poder a Costa Gomes e a Spínola, tendo estes recusado. Por outro lado, o presidente da República, Américo Tomás, não aceitou a demissão. Na opinião de Fernando Rosas, a revolta das Caldas foi a maneira da generalidade das unidades militares demonstrarem a sua repulsa contra a submissão das Forças Armadas simbolizada pela cerimónia de 14 de Março em que a chamada “Brigada do Reumático” foi jurar fidelidade ao regime. Por outro lado, a demissão de Spínola e de Costa Gomes a seguir à tal cerimónia a que nem um nem outro compareceram. Muitos dos militares revoltosos eram próximos de Spínola e pretenderam desagravar a afronta que lhe foi feita. Isto, apesar de Spínola, não estando inteirado da conspiração, ter proposto que, em uniforme nº. 1 e ostentando as condecorações descessem a Avenida da Liberdade, na capital.
Na mesma sessão, o coronel Ferreira da Silva, na altura do golpe o principal instigador da saída dos militares do Regimento de Infantaria 5 (actualmente, Escola de Sargentos das Caldas da Rainha), admitiu ter telefonado para o RI5 (Tomar) informando que a sua unidade iria avançar sobre Lisboa, com ou sem outras adesões, provocando a saída precipitada da unidade em direcção a Lisboa. Otelo Saraiva de Carvalho interveio no fim. Contou como tendo sido informado da progressão da coluna militar depois desta ter saído, na madrugada de 16 de Março, dirigiu-se ao seu encontro. Deparou com uma elevada concentração de unidades militares e GNR à entrada de Lisboa. Terá sido da observação que fez do dispositivo militar governamental que extraiu a ideia de na «Ordem de Operações» para 25 de Abril, atribuir a Salgueiro Maia a missão de ocupar o Terreiro do Paço, atraindo ali as forças fiéis ao regime e permitindo que os outros alvos militares fossem ocupados e controlados sem oposição. Ainda quanto ao 16 de Março, Otelo revelou que o major Casanova Ferreira procurou aliciar unidades militares, sobretudo, os pára-quedistas e a Escola Prática de Cavalaria de Santarém. Contudo, estas recusaram participar face à fragilidade do plano. Casanova Ferreira não desarmou, acreditando que, mesmo sem plano, “basta sair uma unidade para saírem todas as outras atrás.” O adiamento da revolta proposto por Otelo e aceite por Casanova, seria, contudo, contrariado pelo capitão Virgílio Varela que não acatou a ordem de desmobilização. Os militares do RI 5, apesar das dúvidas que os assaltavam, como foi testemunhado nesta conferência, neutralizaram o seu comandante e saíram em direcção a Lisboa. O 16 de Março estava na rua. Uma aparente derrota, mas um excelente ensaio para a grande vitória do mês seguinte.
No restaurante Pelé, da Rua João Crisóstomo, todas as semanas havia um almoço de um grupo numeroso onde se projectava a criação de uma comuna, uma espécie dos falanstérios ideados por Charles Fourier – o escritor Pedro Oom tivera a ideia de emigrarmos, saindo do país pelo buraco negro de uma comuna a instalar no Ribatejo (um fim-de-semana andámos a ver terrenos). Além do Pedro, faziam parte do grupo, entre outros, o António José Forte, o Adriano de Carvalho, o Camecelha e eu. As reuniões numa garagem da Parede eram nas sextas à noite. Após o que, já nas madrugadas de sábado, íamos beber um copo a casa do Joaquim Reis, meu compadre, que ficava em frente à garagem. Era então que o vizinho, homem da rádio e da televisão, nos aparecia com informações (e por vezes com comunicados) das reuniões do movimento dos capitães. Quando na segunda ou terça chegávamos ao Pelé, o Forte, o Pedro Oom e os outros queriam logo saber «as novidades».
Foi uma semana tormentosa, pensando que a montanha parira um rato e as reuniões dos capitães tinham resultado num rotundo fracasso. No almoço seguinte, já de posse de informações actualizadas a alegria voltou. Mas continuámos a projectar o falanstério.
Numa quarta-feira de Abril fomos, eu e minha mulher, almoçar a casa do meus pais, na Rua dos Douradores. Quando vínhamos para tomar o metro para o regresso aos nossos empregos, do café Lusitânia, vulgo «Patinhas» sai-me o Forte ao caminho. Pergunta-me.
– Para quando é aquilo?
Aquilo era a queda do regime, a Revolução. Claro que, apesar de bem informado, eu não sabia em que data seria. Mas respondi:
– É amanhã – e rimos.
Mas nunca consegui convencer o Forte de que respondera ao acaso.
Um bom contributo para a compreensão dos acontecimentos de há 40 anos. Malta mais jovem, leiam, que para vocês é tudo novidade! O pior é que estamos a precisar de outro “buraco negro” para sairmos do país… Só que antes, a diferença entre Portugal e o resto da Europa era grande e agora é tudo do mesmo.
Se não forem as Forças Armadas a população portuguesa está condenada – Cavaco “dixit” – a mais 30 anos de sacrifícios bem penosos. É fundamental virar as costas aos partidos políticos e às suas correias de transmissão e dirigir todas as manifestações para a Chefia do Estado-Maior das Forças Armadas. É o único trunfo que resta à população. Se nada lhes for pedido, nada farão.CLV
Um bom contributo para a compreensão dos acontecimentos de há 40 anos. Malta mais jovem, leiam, que para vocês é tudo novidade! O pior é que estamos a precisar de outro “buraco negro” para sairmos do país… Só que antes, a diferença entre Portugal e o resto da Europa era grande e agora é tudo do mesmo.
Se não forem as Forças Armadas a população portuguesa está condenada – Cavaco “dixit” – a mais 30 anos de sacrifícios bem penosos. É fundamental virar as costas aos partidos políticos e às suas correias de transmissão e dirigir todas as manifestações para a Chefia do Estado-Maior das Forças Armadas. É o único trunfo que resta à população. Se nada lhes for pedido, nada farão.CLV