FRATERNIZAR – A VAIDADE DA HIERARQUIA ECLESIÁSTICA NÃO TEM LIMITES – por Mário de Oliveira

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O panteão dos patriarcas de Lisboa

Imagem1E ainda dizem por aí que, pelo menos, no nascer e no morrer, somos todas, todos, iguais. Uma ova! Desiguais, é o que somos. Escandalosamente, desiguais. Há quem nasça em berço de ouro e, depois de morrer, veja o seu cadáver ser sepultado com pompa e circunstância em mausoléus. Ou em panteões, como sucedeu, estes dias, com o cadáver do cardeal patriarca de Lisboa, D. José da Cruz Policarpo. E há quem nasça em currais e, depois de morrer ou ser morto, veja o seu cadáver ser lançado à vala comum, como se faz com todos os “malditos” de Deus, o do poder. O caso de Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, é paradigmático. Até no nascer e no morrer, os pobres são pobres. Diz-se, e com razão, que os pobres não têm onde cair mortos. E assim é, porque a terra que originalmente é de todos, foi, progressivamente, roubada pelos ricos e hoje já é toda do poder financeiro.

Os pobres, embora sejam a esmagadora maioria da população mundial, são sempre excedentários, lá onde insistem em estar vivos. Nenhum dos institucionais do poder – e são mais do que muitos – os reconhece como seres humanos. No máximo, são simplesmente tolerados, assistidos ou abandonados à sua sorte. E condenados a ter de jazer por toda a vida, junto a todas as piscinas de Betzatá (cf JESUS SEGUNDO JOÃO, cap 5 e respectivas Anotações), sem que ninguém, nem sequer os partidos políticos e as igrejas cristãs, lhes reconheça o direito a levantar-se politicamente e a andar. Seria uma revolução política e económica e os institucionais do poder não toleram revoluções. Apenas reformas que mudam alguma coisa para que tudo fique na mesma. E para nunca serem surpreendidos por nenhuma revolução, eis que os institucionais do poder estão aí cientificamente armados até aos dentes. Têm exércitos e polícias por conta. Mesmo que lhes paguem mal e porcamente, os seus membros juram dar a própria vida para os defender de qualquer ameaça. E cumprem escrupulosamente o juramento. De contrário, são de imediato abatidos. Podem manifestar-se e trazer para as ruas das respectivas capitais o seu descontentamento, mas não mais que isso. Concluídas as manifestações, ei-los, de novo, fardados e armados, prontos a reprimir as populações que ousem passar da postura política do AQUI JAZ, à postura política do LEVANTAR-SE E ANDAR. Para cúmulo, dispõem, até, de capelães e de bispos que orgulhosamente se apresentam como capelães e bispos das forças armadas e de segurança, sempre prontos a abençoar todos os seus crimes.

Os institucionais do poder só têm olhos e ouvidos para os grandes e para os ricos. E o cardeal patriarca de Lisboa, D. José da Cruz Policarpo, vítima de um aneurisma mortal, foi um desses grandes. Por isso, o funeral do seu cadáver só poderia ter sido tratado como foi, com toda a pompa e circunstância. Teve, até, a velá-lo, cavaleiros da Ordem do Santo Sepulcro que, depois, o protegeram, durante o cortejo a pé, rumo ao panteão dos patriarcas, no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa. Uma bizantinice que, na sua crueldade, diz bem quanto o cristianismo eclesiástico é diametralmente oposto a Jesus e ao seu movimento-projecto político maiêutico. E quanto, por isso, é diametralmente oposto aos seres humanos. Temos sido levados a pensar que o cristianismo é o que há de melhor sobre a terra. E que o que de melhor se pode dizer de alguém é que é um cristão exemplar. Se por “melhor”, se entender, privilégios, então sim. Só que os privilégios, em quem existirem e se mantiverem, são sempre a morte do humano, nunca a sua afirmação plena e integral. Só mesmo o cristianismo nos faz pensar-viver o contrário. Porque, como todo o sistema de poder, é mentiroso e pai de mentira. A história aí está a comprová-lo!

A este propósito, saibam que, quando eu morrer – já o digo no meu testamento publicado no final do NOVO LIVRO DO APOCALIPSE OU DA REVELAÇÃO, Edição Areias Vivas, Outubro 2009 – peço/exijo que o meu cadáver seja vestido com uma roupa vulgar, de meu uso diário e que a urna seja de imediato fechada. O cortejo, com a urna fechada, iniciado na casinha arrendada onde presentemente vivo, seja feito em silêncio, directamente para o cemitério, sem entrar na igreja paroquial. Peço/exijo que não seja contratada nenhuma agência funerária, que os sinos da igreja local não toquem a defunto e que nenhum pároco ou bispo residencial presida ao funeral. Peço/exijo que não se pronuncie nenhuma fórmula ritual de oração e que nenhuma missa seja rezada por mim. Peço/exijo que a urna seja sepultada em terra de ninguém, no cemitério da freguesia de Macieira da Lixa, de modo que, passado o tempo legal, outro cadáver possa ser lá sepultado. Sobre a terra, sejam lançadas sementes de flores de cores garridas e variadas que venham a florir em seu tempo. E que um singelo rectângulo de madeira, com os dizeres, MÁRIO, PRESBÍTERO, seja pousado sobre a campa rasa.

 Mais peço que as pessoas minhas amigas não venham ao funeral. Em vez disso, lá onde vivem, juntem-se umas com as outras em redor de Mesas Compartilhadas e partam o Pão, o Vinho, a Palavra e os afectos, em minha memória e em comunhão comigo, então, já definitivamente vivente e activamente presente, ainda que invisível aos olhos. No meu quotidiano viver presbiteral, experimento-me tão amado por Deus Abba-Mãe, que nunca ninguém viu, que dispenso, no funeral do meu cadáver, todos esses tradicionais ritos/rituais religiosos e eclesiásticos sem sentido e que mais não são do que uma pornográfica forma de fazer dinheiro e de roubar a voz e a vez às pessoas, inclusive, em momentos tão significativos como o da Páscoa de cada qual. Por isso, nessa hora, que é também a da minha ressurreição, todo o mundo cante/dance comigo, Viva a Vida! Viva a Liberdade! Viva a Sororidade/Fraternidade universal!

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